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Ciência

O gelo marciano pode guardar segredos da vida por milhões de anos

Fragmentos biológicos que resistem ao tempo e à radiação: um novo estudo da NASA e da Universidade Estadual da Pensilvânia revela que moléculas orgânicas podem sobreviver por mais de 50 milhões de anos presas no gelo de Marte. A descoberta abre uma janela de esperança para a busca de sinais de vida no planeta vermelho.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Durante décadas, a pergunta sobre se Marte já abrigou vida alimenta pesquisas e missões. Agora, a ciência mostra que talvez o próprio planeta tenha preservado pistas em cápsulas naturais de gelo. Segundo os pesquisadores, fragmentos biológicos poderiam permanecer estáveis por períodos muito mais longos do que se imaginava, mesmo sob as duras condições marcianas.

O gelo como cápsula do tempo

O estudo, publicado na revista Astrobiology, demonstrou que proteínas bacterianas poderiam permanecer preservadas por mais de 50 milhões de anos em gelo de água pura. Esse tempo supera a idade de muitos depósitos superficiais já identificados em Marte, o que significa que eventuais moléculas orgânicas poderiam estar à espera das próximas missões de exploração.

“Cinquenta milhões de anos é muito além do que esperávamos”, explicou Chris House, coautor do trabalho e diretor do Consórcio de Ciência e Tecnologia Planetária da Penn State.

Simulações em condições marcianas

A pesquisa foi liderada por Alexander Pavlov, do Centro Goddard da NASA. A equipe suspendeu bactérias E. coli em tubos contendo gelo puro e outros com misturas semelhantes ao solo marciano. As amostras foram congeladas a –51 °C, temperatura típica das regiões polares de Marte, e expostas a radiação equivalente a 50 milhões de anos de raios cósmicos.

Os resultados surpreenderam: em gelo sólido, mais de 10% dos aminoácidos sobreviveram, enquanto nas misturas com minerais os compostos orgânicos se degradaram dez vezes mais rápido. Pavlov destacou que a radiação, em vez de destruir, acabou “aprisionada” no gelo, sem alcançar diretamente as moléculas biológicas.

Onde procurar vida em Marte

Esse efeito indica que os melhores locais para buscar vestígios biológicos são os depósitos dominados por gelo puro. A missão Phoenix, em 2008, já havia encontrado gelo sob o regolito marciano. Agora, o estudo sugere que ferramentas de perfuração mais profundas, em futuras missões, poderão alcançar zonas ainda intactas e potencialmente ricas em sinais de vida.

House ressaltou que o próximo passo será desenvolver instrumentos que consigam penetrar abaixo da fina camada de regolito, onde os fragmentos podem estar preservados há milhões de anos.

Pistas para outras luas geladas

O trabalho também simulou condições em Europa, lua de Júpiter, e em Encélado, de Saturno, onde as temperaturas são ainda mais baixas. Nesses cenários, as moléculas orgânicas resistiram por períodos ainda mais longos, reforçando a importância da missão Europa Clipper, que já começou a explorar o ambiente gelado da lua joviana.

Segundo Pavlov, os resultados são animadores: “Até moléculas frágeis podem persistir em ambientes congelados por escalas de tempo geológicas”.

Um arquivo biológico no planeta vermelho

A pesquisa reforça a ideia de que o gelo marciano é uma cápsula natural capaz de preservar não apenas moléculas, mas possivelmente fragmentos microbianos inteiros. Se essa hipótese se confirmar, as missões futuras poderão encontrar registros diretos de vida passada em Marte.

A 225 milhões de quilômetros da Terra, o gelo marciano pode estar guardando a evidência mais antiga de que não estamos sozinhos no universo.

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