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Tecnologia

O hacker ‘Tank’ quebra o silêncio: como funciona o submundo do cibercrime

Poucos criminosos digitais chegam ao nível de notoriedade de “Tank”. Menos ainda topam explicar, da prisão, como operam as organizações que movimentam milhões em ataques ao redor do mundo. Em uma entrevista rara e exclusiva à BBC, o ucraniano Vyacheslav Penchukov — um dos homens mais caçados pela cibersegurança global — revela detalhes do funcionamento interno de gangues, suas estratégias, suas falhas e a lógica implacável que move o cibercrime moderno.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Este é um tema sensível, associado a crimes internacionais, prisões, vítimas e danos reais — por isso, o tom aqui é jornalístico, direto e factual.

O rosto por trás do apelido: quem é Tank

O hacker ‘Tank’ quebra o silêncio: como funciona o submundo do cibercrime
© https://x.com/DeepBlueInfoSec/

Penchukov, hoje com 39 anos, não chegou ao topo do crime digital pela genialidade técnica — mas pelo carisma e pela capacidade de criar alianças. Ele passou quase 10 anos na lista dos mais procurados do FBI, liderou duas gangues diferentes e deixou milhares de vítimas em vários países.

Antes de ser preso, ele fugiu de operações policiais na Ucrânia, circulou entre criminosos de elite e manteve vida de luxo: carros alemães caros, noites como DJ e muita ostentação. No mundo da cibersegurança, sua trajetória virou um caso emblemático de como os grupos criminosos evoluíram, do roubo bancário digital à era do ransomware industrializado.

Falando da penitenciária de Englewood, no Colorado — onde cumpre duas penas simultâneas de nove anos — Penchukov alterna humor surpreendente e frieza absoluta. Entre as frases que mais marcam a entrevista está uma simples:

“Não o bastante — estou na prisão.”

A queda: uma perseguição de 15 anos

A prisão de Tank ocorreu em 2022, em uma operação cinematográfica na Suíça. Ele relata que havia atiradores no telhado, um saco colocado sobre sua cabeça e seus filhos assistindo à cena. A irritação com o método contrasta com o impacto devastador das gangues que ele liderou.

No fim dos anos 2000, Penchukov integrava o grupo Jabber Zeus, responsável por um esquema que roubou dezenas de milhões de dólares diretamente de contas bancárias. Só no Reino Unido foram mais de 600 vítimas em três meses.

O FBI chegou perto de capturá-lo em uma operação chamada Trident Breach, mas Tank escapou dirigindo um Audi S8 com motor Lamborghini. “Foi a chance perfeita de testar o carro”, brinca.

A transição para o ransomware

Depois de anos se escondendo e tentando levar uma vida legal na Ucrânia, a instabilidade política e econômica — especialmente após a invasão da Crimeia — o empurrou de volta ao cibercrime.

A partir de 2018, ele entrou no lucrativo ecossistema do ransomware, ataques que sequestram dados e paralisam sistemas inteiros. Os lucros eram enormes: cerca de US$ 200 mil por mês, segundo ele.

Tank trabalhou com grupos como Maze, Egregor e Conti — alguns dos mais agressivos da história. Um rumor sobre hackers lucrando US$ 20 milhões de um hospital paralisado desencadeou uma onda de ataques a instituições médicas nos EUA. “Eles só viam o dinheiro. Não o impacto humano”, afirma.

Sua participação no grupo IcedID resultou na infecção de mais de 150 mil computadores, incluindo o ataque ao University of Vermont Medical Center, que gerou prejuízo de US$ 30 milhões e deixou serviços médicos essenciais fora do ar por semanas. Ele nega ter participado, dizendo que assumiu culpa para reduzir a pena.

Bastidores: como operam os grupos de cibercrime

Penchukov descreve uma comunidade guiada por desconfiança total.

“A paranoia é uma companheira constante.”

Hackers evitam amizades, mudam de identidade, trocam servidores e operam como empresas ilegais: equipes, hierarquias, metas e repasses. Ele também confirma algo que autoridades suspeitam há anos: o envolvimento de serviços de segurança russos com gangues como a Evil Corp.

Segundo ele, alguns membros “falavam com seus contatos no FSB”. A Rússia não respondeu às acusações.

A queda dos parceiros — e o isolamento

Um dos nomes mais conhecidos ligados a Tank é Maksim Yakubets, o “Aqua”, líder da Evil Corp e alvo de uma recompensa de US$ 5 milhões. Penchukov rompeu com ele quando percebeu que qualquer ligação com Aqua era perigosa demais após as sanções de 2019.

Ele diz que, depois disso, Yakubets passou a ser evitado mesmo no submundo hacker. Mas isso não enfraqueceu o grupo: no ano passado, a agência nacional britânica de combate ao crime sancionou 16 membros da organização.

Ao contrário de Tank, porém, as chances de Yakubets ser preso são baixas, já que ele dificilmente deixará a Rússia.

E as vítimas?

A parte mais desconfortável da entrevista é a reação de Tank às pessoas impactadas por seus crimes. Ele admite que nunca pensou nelas, e parece continuar indiferente — exceto por um ataque envolvendo uma instituição de caridade infantil.

Uma de suas vítimas, a pequena empresa Lieber’s Luggage, perdeu US$ 12 mil. A dona, Leslee, ainda se emociona ao contar como o roubo arruinou o caixa, afetou funcionários e fez sua mãe — responsável pelas contas — sentir-se culpada.

“Raiva, frustração, medo”, ela resume. Quando questionada sobre o que diria ao hacker, responde:

“Nada do que eu dissesse faria diferença.”

O que Tank aprendeu (e o que não aprendeu)

Perguntado sobre remorso, ele fala do destino de outros hackers, não dos danos causados aos inocentes:

“Se você faz cibercrime tempo suficiente, perde a vantagem.”

É uma advertência forte — e um lembrete de que, no universo do cibercrime, a queda costuma vir não da polícia, mas dos próprios parceiros.

A pergunta que fica

A entrevista de Tank revela como o ransomware se tornou a maior arma digital do século, como gangues se estruturam e como falhas na cibersegurança global criaram terreno fértil para um ecossistema criminoso bilionário. Ainda assim, o silêncio emocional de Penchukov mostra um ponto central: no fim, quem paga a conta são sempre as vítimas comuns.

Fica a reflexão: estamos preparados para enfrentar criminosos tão organizados quanto corporações — ou continuaremos a correr atrás de um submundo que evolui mais rápido do que a lei?

[Fonte: Correio Braziliense]

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