Este é um tema sensível, associado a crimes internacionais, prisões, vítimas e danos reais — por isso, o tom aqui é jornalístico, direto e factual.
O rosto por trás do apelido: quem é Tank

Penchukov, hoje com 39 anos, não chegou ao topo do crime digital pela genialidade técnica — mas pelo carisma e pela capacidade de criar alianças. Ele passou quase 10 anos na lista dos mais procurados do FBI, liderou duas gangues diferentes e deixou milhares de vítimas em vários países.
Antes de ser preso, ele fugiu de operações policiais na Ucrânia, circulou entre criminosos de elite e manteve vida de luxo: carros alemães caros, noites como DJ e muita ostentação. No mundo da cibersegurança, sua trajetória virou um caso emblemático de como os grupos criminosos evoluíram, do roubo bancário digital à era do ransomware industrializado.
Falando da penitenciária de Englewood, no Colorado — onde cumpre duas penas simultâneas de nove anos — Penchukov alterna humor surpreendente e frieza absoluta. Entre as frases que mais marcam a entrevista está uma simples:
“Não o bastante — estou na prisão.”
A queda: uma perseguição de 15 anos
A prisão de Tank ocorreu em 2022, em uma operação cinematográfica na Suíça. Ele relata que havia atiradores no telhado, um saco colocado sobre sua cabeça e seus filhos assistindo à cena. A irritação com o método contrasta com o impacto devastador das gangues que ele liderou.
No fim dos anos 2000, Penchukov integrava o grupo Jabber Zeus, responsável por um esquema que roubou dezenas de milhões de dólares diretamente de contas bancárias. Só no Reino Unido foram mais de 600 vítimas em três meses.
O FBI chegou perto de capturá-lo em uma operação chamada Trident Breach, mas Tank escapou dirigindo um Audi S8 com motor Lamborghini. “Foi a chance perfeita de testar o carro”, brinca.
A transição para o ransomware
Depois de anos se escondendo e tentando levar uma vida legal na Ucrânia, a instabilidade política e econômica — especialmente após a invasão da Crimeia — o empurrou de volta ao cibercrime.
A partir de 2018, ele entrou no lucrativo ecossistema do ransomware, ataques que sequestram dados e paralisam sistemas inteiros. Os lucros eram enormes: cerca de US$ 200 mil por mês, segundo ele.
Tank trabalhou com grupos como Maze, Egregor e Conti — alguns dos mais agressivos da história. Um rumor sobre hackers lucrando US$ 20 milhões de um hospital paralisado desencadeou uma onda de ataques a instituições médicas nos EUA. “Eles só viam o dinheiro. Não o impacto humano”, afirma.
Sua participação no grupo IcedID resultou na infecção de mais de 150 mil computadores, incluindo o ataque ao University of Vermont Medical Center, que gerou prejuízo de US$ 30 milhões e deixou serviços médicos essenciais fora do ar por semanas. Ele nega ter participado, dizendo que assumiu culpa para reduzir a pena.
Bastidores: como operam os grupos de cibercrime
Penchukov descreve uma comunidade guiada por desconfiança total.
“A paranoia é uma companheira constante.”
Hackers evitam amizades, mudam de identidade, trocam servidores e operam como empresas ilegais: equipes, hierarquias, metas e repasses. Ele também confirma algo que autoridades suspeitam há anos: o envolvimento de serviços de segurança russos com gangues como a Evil Corp.
Segundo ele, alguns membros “falavam com seus contatos no FSB”. A Rússia não respondeu às acusações.
A queda dos parceiros — e o isolamento
Um dos nomes mais conhecidos ligados a Tank é Maksim Yakubets, o “Aqua”, líder da Evil Corp e alvo de uma recompensa de US$ 5 milhões. Penchukov rompeu com ele quando percebeu que qualquer ligação com Aqua era perigosa demais após as sanções de 2019.
Ele diz que, depois disso, Yakubets passou a ser evitado mesmo no submundo hacker. Mas isso não enfraqueceu o grupo: no ano passado, a agência nacional britânica de combate ao crime sancionou 16 membros da organização.
Ao contrário de Tank, porém, as chances de Yakubets ser preso são baixas, já que ele dificilmente deixará a Rússia.
E as vítimas?
A parte mais desconfortável da entrevista é a reação de Tank às pessoas impactadas por seus crimes. Ele admite que nunca pensou nelas, e parece continuar indiferente — exceto por um ataque envolvendo uma instituição de caridade infantil.
Uma de suas vítimas, a pequena empresa Lieber’s Luggage, perdeu US$ 12 mil. A dona, Leslee, ainda se emociona ao contar como o roubo arruinou o caixa, afetou funcionários e fez sua mãe — responsável pelas contas — sentir-se culpada.
“Raiva, frustração, medo”, ela resume. Quando questionada sobre o que diria ao hacker, responde:
“Nada do que eu dissesse faria diferença.”
O que Tank aprendeu (e o que não aprendeu)
Perguntado sobre remorso, ele fala do destino de outros hackers, não dos danos causados aos inocentes:
“Se você faz cibercrime tempo suficiente, perde a vantagem.”
É uma advertência forte — e um lembrete de que, no universo do cibercrime, a queda costuma vir não da polícia, mas dos próprios parceiros.
A pergunta que fica
A entrevista de Tank revela como o ransomware se tornou a maior arma digital do século, como gangues se estruturam e como falhas na cibersegurança global criaram terreno fértil para um ecossistema criminoso bilionário. Ainda assim, o silêncio emocional de Penchukov mostra um ponto central: no fim, quem paga a conta são sempre as vítimas comuns.
Fica a reflexão: estamos preparados para enfrentar criminosos tão organizados quanto corporações — ou continuaremos a correr atrás de um submundo que evolui mais rápido do que a lei?
[Fonte: Correio Braziliense]