“Por que você quer viver até os 150 anos?”
A pergunta surgiu durante um jantar em um retiro exclusivo em Aspen, no Colorado. Diante dela estava Bryan Johnson, empresário de tecnologia e biohacker que transformou o próprio corpo em um enorme experimento contra o envelhecimento. Johnson gastou milhões de dólares monitorando sua saúde e tentando prolongar a vida ao máximo. Mas, meses depois daquela conversa, recebeu o que chamou de “más notícias”.
O homem que decidiu lutar contra o envelhecimento
Bryan Johnson says believing in life after death and rationalizing death is insane, and we should instead try to eliminate it pic.twitter.com/0WqovxLDwI
— Tsarathustra (@tsarnick) May 16, 2024
A humanidade procura maneiras de escapar da morte há milhares de anos. Imperadores chineses, alquimistas medievais e personagens lendários como Gilgamesh perseguiram alguma forma de imortalidade.
Hoje, as poções foram substituídas por exames, suplementos, dietas, medicamentos e tecnologia.
Johnson, que vive em Los Angeles, tornou-se um dos representantes mais conhecidos desse movimento. Seu lema é simples: “Não morra”.
Ele já se definiu como “a pessoa mais saudável do planeta” e monitora praticamente tudo o que acontece em seu organismo. Exames de sangue, frequência cardíaca, gordura visceral e até ereções noturnas fazem parte de sua rotina de acompanhamento.
Sua alimentação contém pouca carne e muitos peptídeos de colágeno. Durante determinado período, chegou a consumir mais de 100 suplementos por dia. Também realizou um controverso experimento no qual recebeu plasma sanguíneo de seu filho adolescente e forneceu seu próprio plasma ao pai.
Johnson acredita que esse nível de controle pode revelar como desacelerar o envelhecimento. No entanto, seu organismo acaba de mostrar que nem tudo pode ser controlado.
“Meu estômago está comendo a si mesmo”
Neste verão, Johnson revelou nas redes sociais que foi diagnosticado com gastrite autoimune.
A doença ocorre quando o sistema imunológico ataca determinadas células do estômago responsáveis pela produção de ácido. Com o tempo, o problema pode provocar deficiência de ferro e vitamina B12.
Essas deficiências podem estar relacionadas a sintomas como dificuldade de concentração, queda de cabelo, unhas quebradiças e complicações neurológicas. A condição também está associada a um risco maior de câncer de estômago.
Johnson resumiu a situação de maneira dramática: “Meu estômago está comendo a si mesmo”.
O diagnóstico pareceu especialmente irônico para alguém que dedica grande parte da vida à saúde.
“Como alimentos integrais”, escreveu. “Faço exercícios todos os dias e não faço coisas ruins.”
Ainda assim, Johnson não interpretou a descoberta como uma derrota. Segundo ele, agora começa uma fase de “resolução da doença”.
O empresário acredita que a medicina poderá chegar a um momento em que adoecer será algo excepcional. Hoje, argumenta, as pessoas praticamente esperam desenvolver alguma doença ao longo da vida.
A longevidade foi longe demais?
Pouco depois, Johnson publicou uma frase curiosa no X: “Tenho pensado sobre as coisas e me pergunto se levei longe demais toda essa questão da longevidade”.
A publicação ganhou atenção justamente porque Johnson construiu sua imagem em torno dessa busca.
Um de seus críticos é Ezekiel J. Emanuel, especialista em políticas de saúde que trabalhou durante o governo de Barack Obama. Emanuel defende uma visão praticamente oposta.
Enquanto Johnson pretende desafiar os limites da longevidade, Emanuel já afirmou que ficaria satisfeito em viver até os 75 anos.
Para ele, tentar derrotar o envelhecimento pode transformar a saúde em uma obsessão. Sua proposta é muito mais simples: evitar alimentos ultraprocessados, dormir adequadamente, manter relações sociais e aproveitar novas experiências.
O próprio título de seu livro mais recente resume a filosofia: Eat Your Ice Cream (“Tome seu sorvete”, em tradução livre).
“Voei perto demais do Sol”
Johnson também reconhece que sua busca pode parecer excessiva.
Ao falar sobre as críticas recebidas após o diagnóstico, recorreu ao mito grego de Ícaro, que voou tão perto do Sol que suas asas de cera derreteram.
“Voei perto demais do Sol”, afirmou.
Apesar disso, ele rejeita a ideia de que seu rigoroso protocolo de longevidade tenha causado a gastrite autoimune.
Johnson acredita que a condição poderia estar presente silenciosamente há décadas e possivelmente relacionada ao hipotireoidismo diagnosticado quando tinha 21 anos. Especialistas ressaltam, porém, que não existe uma causa conhecida e definitiva para a gastrite autoimune.
Para Johnson, os últimos cinco anos de monitoramento intenso podem inclusive ter ajudado.
“Se eu não estivesse cuidando da minha saúde de maneira tão meticulosa, é possível que meu diagnóstico fosse muito pior”, afirmou.
Ele também minimizou sua publicação questionando se havia levado a longevidade longe demais. Disse que estava apenas fazendo uma piada consigo mesmo.
Mas seu caso expõe um paradoxo difícil de ignorar.
Quanto mais exames são realizados, maior a possibilidade de encontrar alguma alteração. O próprio Johnson reconheceu isso: “Quando você mede, encontra coisas”.
E talvez exista outra questão ainda mais profunda. Quando grande parte da energia é dedicada a permanecer vivo, pode sobrar menos tempo para simplesmente viver.
A ciência pode continuar ampliando os limites da longevidade humana. Por enquanto, porém, permanece uma realidade que nem mesmo o homem que tenta medir cada detalhe do próprio organismo conseguiu eliminar: a imortalidade ainda não existe.
[ Fonte: Infobae ]