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Ciência

Antes de chegar a Marte, a humanidade precisa resolver um problema que começa em nossa própria pele

O retorno de astronautas à Lua traz um passageiro praticamente impossível de deixar na Terra. Para a NASA, sua presença pode complicar uma das grandes perguntas da exploração espacial.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Quando astronautas voltarem a caminhar pela Lua, não estarão realmente sozinhos. Mesmo com protocolos rigorosos de limpeza, milhões de organismos microscópicos associados ao corpo humano poderão acompanhá-los silenciosamente. O problema ganhou uma nova dimensão depois que cientistas da NASA investigaram se alguns desses seres conseguiriam resistir às condições extremas do polo sul lunar. A resposta levanta preocupações sobre contaminação e sobre como procuraremos vida fora da Terra no futuro.

Alguns micróbios terrestres podem encontrar refúgio na Lua

Antes de chegar a Marte, a humanidade precisa resolver um problema que começa em nossa própria pele
© NASA – Unsplash

Cientistas da NASA descobriram que determinados microrganismos associados aos seres humanos podem ser capazes de sobreviver às condições encontradas no polo sul da Lua, região que ocupa uma posição estratégica nos planos de retorno da humanidade ao satélite.

A sobrevivência não ocorreria necessariamente nas áreas mais expostas da superfície. O interesse dos pesquisadores está principalmente em pequenas regiões protegidas, como rachaduras, cantos e cavidades permanentemente ou parcialmente sombreadas.

Esses locais poderiam oferecer condições menos hostis para alguns organismos transportados involuntariamente pelos astronautas.

A descoberta chama atenção porque levar micróbios terrestres ao espaço é praticamente inevitável. Nosso corpo abriga comunidades enormes de organismos microscópicos, e apenas uma pequena amostra de pele pode conter milhões de bactérias.

Alguns desses seres já demonstraram uma resistência impressionante fora da Terra. Microrganismos associados aos humanos foram encontrados sobrevivendo nas condições particulares da Estação Espacial Internacional, e determinadas espécies conseguem suportar ambientes extremos durante períodos consideráveis.

Agora, com o programa Artemis direcionando novamente a atenção para a superfície lunar, surge uma pergunta incômoda: o que acontecerá quando começarmos a levar nossa própria biologia para lugares que permaneceram praticamente intocados durante bilhões de anos?

O problema não é apenas deixar bactérias para trás

A preocupação dos pesquisadores vai muito além da possibilidade de “sujar” a Lua.

Um dos grandes objetivos da exploração espacial é compreender a composição original de outros mundos. Cientistas estudam minerais, moléculas e diferentes assinaturas químicas em busca de pistas sobre a formação do Sistema Solar e, eventualmente, sobre ambientes capazes de sustentar vida.

Quando seres humanos chegam a esses lugares, porém, carregam sua própria assinatura biológica.

Prabal Saxena, cientista planetário da NASA e líder do estudo, resumiu o dilema ao observar que os humanos são exploradores por natureza, mas levam consigo muito mais do que equipamentos e lembranças: levam também seus micróbios.

Para alguns pesquisadores, essa realidade é inquietante.

Se organismos terrestres sobreviverem na superfície lunar, futuras análises precisarão distinguir aquilo que já estava no ambiente daquilo que chegou com astronautas, equipamentos ou espaçonaves.

Por isso, estabelecer uma espécie de fotografia microbiológica e química da Lua antes de ampliar a presença humana se torna particularmente importante.

Ao mesmo tempo, o problema pode esconder uma oportunidade científica bastante incomum.

A contaminação também poderia virar um experimento

Antes de chegar a Marte, a humanidade precisa resolver um problema que começa em nossa própria pele
© Pexels

Os pesquisadores consideram que a própria presença inevitável de micróbios terrestres pode ser utilizada para estudar os limites da vida.

A Lua oferece condições extremas difíceis de reproduzir perfeitamente em laboratórios terrestres. Com protocolos adequados, seria possível realizar experimentos controlados para observar quanto tempo determinados microrganismos resistem e quais mecanismos utilizam para enfrentar radiação, mudanças de temperatura e outras condições hostis.

Antes disso, entretanto, é necessário descobrir exatamente quais organismos têm maior probabilidade de chegar até lá.

Entre os micróbios analisados pelos cientistas está o Aspergillus niger, fungo bastante comum na Terra e associado ao mofo encontrado em ambientes quentes e úmidos, inclusive dentro de residências.

O organismo chama atenção justamente por sua resistência. Já se sabe que ele consegue sobreviver em condições relacionadas à Estação Espacial Internacional e até em ambientes externos à estação.

Investigar microrganismos como esse permite estimar quais passageiros microscópicos poderiam suportar uma viagem espacial e, posteriormente, permanecer em determinadas regiões lunares.

Mas a Lua é apenas o começo dessa preocupação.

Marte torna essa questão muito mais delicada

Antes de chegar a Marte, a humanidade precisa resolver um problema que começa em nossa própria pele
© Unsplash

O verdadeiro teste para os protocolos de proteção planetária poderá acontecer quando astronautas viajarem para Marte.

Uma das maiores perguntas científicas associadas ao planeta vermelho é se existe ou existiu vida por lá. Encontrar uma possível assinatura biológica seria uma descoberta extraordinária, mas também abriria imediatamente outra questão: ela é realmente marciana?

Andrew Needham, cientista especializado no controle de contaminação de amostras lunares do programa Artemis, destaca a necessidade de entender aquilo que existe em um ambiente antes da chegada humana.

Caso contrário, futuras missões em Marte poderiam encontrar compostos ou organismos e precisar enfrentar a possibilidade de que tenham sido levados pelos próprios exploradores terrestres.

Essa é uma das razões pelas quais a NASA estuda cuidadosamente a chamada proteção planetária. Não basta proteger astronautas de outros mundos. Em determinadas missões, também precisamos proteger outros mundos de nós.

O polo sul lunar poderá funcionar como um laboratório para aprender a fazer isso melhor.

A humanidade está se preparando para voltar à Lua com tecnologias muito mais avançadas do que aquelas utilizadas durante o programa Apollo. Mas existe uma carga que nenhuma espaçonave consegue eliminar completamente.

Somos ecossistemas ambulantes.

E, conforme avançamos pelo Sistema Solar, nossos micróbios podem acabar explorando novos mundos conosco.

[Fonte: biobio]

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