Em meio a uma crise econômica prolongada, manifestações nas ruas e um cenário internacional cada vez mais hostil, um velho ator da geopolítica voltou ao centro do debate global. Declarações recentes vindas de Washington reacenderam alertas sobre possíveis escaladas de tensão, enquanto a população enfrenta repressão, censura e incertezas sobre o futuro.
Protestos ganham força e o discurso externo esquenta
As ruas de Teerã e de outras grandes cidades do Irã voltaram a ser palco de manifestações intensas. Já na terceira semana consecutiva, iranianos protestam contra a crise econômica e o regime islâmico, desafiando restrições severas, inclusive o bloqueio do acesso à internet.
Em meio a esse cenário, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, declarou que seu governo está “pronto para ajudar” os iranianos a alcançar a liberdade “como nunca antes”. A mensagem foi publicada em sua rede social Truth Social e repercutiu rapidamente no mundo todo.
A fala ocorreu poucos dias após Trump ter ordenado uma incursão militar na Venezuela e a captura do presidente Nicolás Maduro, o que elevou ainda mais o tom de alerta internacional. Para muitos analistas, a sequência de eventos sugere uma postura externa mais agressiva por parte de Washington.
O secretário de Estado, Marco Rubio, reforçou o posicionamento ao afirmar que “os Estados Unidos estão ao lado do corajoso povo iraniano”. O apoio verbal, no entanto, também alimenta o temor de que o governo iraniano intensifique ainda mais a repressão interna, alegando ingerência estrangeira.
Enquanto isso, manifestantes seguem queimando bandeiras e imagens do líder supremo do país, o aiatolá Ali Khamenei — um gesto simbólico forte em um regime que governa desde a Revolução Islâmica de 1979.
Censura, repressão e denúncias de violência
O acesso à internet no Irã foi bloqueado pelas autoridades, segundo a ONG de cibersegurança Netblocks. A medida dificultou a comunicação entre os manifestantes e o contato com o exterior, levantando suspeitas sobre uma tentativa de esconder a dimensão da repressão.
Dois cineastas iranianos de renome, Mohammad Rasulof e Jafar Panahi, alertaram que o objetivo do apagão seria “encobrir a violência infligida durante a repressão aos protestos”. A declaração foi publicada na conta de Panahi no Instagram, pouco depois de ele ter vencido a Palma de Ouro no Festival de Cannes.
A vencedora do Prêmio Nobel da Paz Shirin Ebadi também manifestou preocupação. Para ela, as forças de segurança poderiam estar se preparando para cometer um “massacre” sob a cobertura do bloqueio das comunicações. Segundo Ebadi, a ONG Iran Human Rights divulgou imagens de corpos empilhados em um hospital.
A Anistia Internacional informou que está analisando evidências de que a repressão se intensificou nos últimos dias. Desde o início dos protestos, em 28 de dezembro, ao menos 51 manifestantes morreram, incluindo nove crianças, além de centenas de feridos, de acordo com a Iran Human Rights.
Em resposta, a televisão estatal iraniana exibiu funerais de membros das forças de segurança mortos durante os confrontos, numa tentativa de reforçar a narrativa oficial de que o país enfrenta uma ameaça interna e externa.
O isolamento internacional se aprofunda
A escalada da violência e as denúncias de repressão vêm ampliando o isolamento diplomático do Irã. A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, declarou apoio aos “homens e mulheres iranianos que reivindicam liberdade” e condenou a repressão violenta.
Para o professor de Relações Internacionais Ricardo Caichiolo, do Ibmec Brasília, o uso da força contra manifestantes — especialmente menores de idade — dificulta qualquer avanço diplomático.
Segundo ele, o cenário compromete negociações econômicas e nucleares, reforça o regime de sanções e limita as chances de reintegração do Irã em fóruns multilaterais. Em outras palavras, a repressão interna acaba tendo impactos diretos na política externa do país.
Enquanto isso, figuras da oposição no exílio também tentam capitalizar o momento. Reza Pahlavi, filho do último xá do Irã, elogiou a participação popular nos protestos e incentivou os iranianos a organizarem atos mais focados, com o objetivo de “tomar e controlar os centros urbanos”.
Pahlavi afirmou ainda que está se preparando para retornar ao país em breve — uma declaração que carrega forte simbolismo histórico, considerando que seu pai foi deposto na revolução de 1979.
O eco dos protestos fora do Irã
As manifestações não se limitaram ao território iraniano. Em Londres, um ato simbólico chamou atenção: um manifestante substituiu a bandeira da República Islâmica na embaixada iraniana por uma bandeira da antiga monarquia.
O gesto ocorreu durante um protesto em apoio aos manifestantes iranianos. Um vídeo que circulou nas redes sociais mostra o homem retirando a bandeira oficial sob aplausos de centenas de pessoas reunidas no local. A nova bandeira, com os símbolos do leão e do sol, permaneceu hasteada por vários minutos.
O episódio reforça como a crise iraniana ressoa também entre comunidades no exterior, ampliando a pressão internacional sobre o regime.
Do lado do governo iraniano, o tom é de enfrentamento. O aiatolá Ali Khamenei criticou os “vândalos” que, segundo ele, estariam por trás dos protestos e acusou os Estados Unidos de estimulá-los.
Ali Larijani, um dos principais conselheiros do líder supremo e chefe da principal agência de segurança do país, foi ainda mais direto: “Estamos em plena guerra”, disse, denunciando “incidentes orquestrados no exterior”.
Um país entre a pressão interna e externa
O Irã vive um dos momentos mais delicados dos últimos anos. Internamente, enfrenta protestos persistentes, crise econômica e crescente insatisfação popular. Externamente, sofre pressão diplomática, sanções e declarações cada vez mais duras de potências como os Estados Unidos.
O bloqueio da internet, as denúncias de repressão e o apoio internacional aos manifestantes indicam que o conflito não é apenas político — ele também é informacional e simbólico.
Enquanto o governo tenta controlar a narrativa e manter a ordem, a população segue buscando formas de se expressar, mesmo sob risco. E, no cenário global, o país volta a ocupar um espaço central no tabuleiro geopolítico.
A pergunta que permanece é: até onde essa escalada pode chegar — e quais serão as consequências para a região e para o mundo?
[Fonte: Correio Braziliense]