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Ciência

O lado oculto da Lua guarda pistas sobre a origem da água na Terra, revelam cientistas chineses

Fragmentos raros de meteoritos ricos em água, encontrados em amostras do lado oculto da Lua, estão ajudando a decifrar um dos maiores enigmas da ciência planetária: como a água e os compostos essenciais à vida chegaram ao sistema Terra-Lua. A descoberta, resultado da missão Chang’e-6 da China, foi publicada na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) e promete reescrever parte da história do nosso sistema solar.
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Tempo de leitura: 3 minutos

As análises indicam que asteroides ricos em compostos voláteis impactaram tanto a Terra quanto a Lua em proporções muito maiores do que se imaginava. Isso reforça a hipótese de que o “ingrediente da vida” não nasceu aqui — mas chegou em forma de chuva cósmica, vinda de rochas antigas formadas nos confins do sistema solar.

A primeira coleta no lado oculto lunar

Enigma Lunar 1
© Jesusmanuelh – X

Liderado por Jintuan Wang, Zhi Ming Chen, Zexian Cui e Yi-Gang Xu, o estudo examinou dois gramas de regolito (poeira lunar) coletados em junho de 2024 pela Chang’e-6, a primeira missão da história a trazer amostras da face invisível da Lua.

Entre as partículas analisadas, os cientistas encontraram sete minúsculos fragmentos de condritas carbonáceas tipo CI, um tipo de meteorito extremamente raro na Terra, mas conhecido por conter grandes quantidades de água e compostos orgânicos.

Esses fragmentos foram identificados na Bacia Apolo, dentro da gigantesca Bacia Polo Sul–Aitken, uma das regiões mais antigas e profundas do satélite. A detecção, segundo os pesquisadores, “abre uma janela inédita para compreender a história de impactos e a evolução química do sistema solar interior”.

Como foi feita a identificação

Para confirmar a origem extraterrestre das partículas, a equipe combinou três técnicas analíticas avançadas:

  1. Análise metálica – medição das proporções de ferro, manganês e zinco para descartar rochas lunares comuns;

  2. Exame textural e estrutural – que mostrou sinais de fusão provocada por impacto, sugerindo que os fragmentos foram depositados após colisões antigas;

  3. Espectrometria de íons secundários (SIMS) – capaz de medir a assinatura isotópica tripla do oxigênio, idêntica à de condritas CI já estudadas em asteroides como Ryugu e Bennu.

Esse conjunto de evidências confirmou que o material não se formou na Lua, mas foi trazido por meteoritos hidratados — restos de corpos primitivos que transportavam água e moléculas orgânicas pelo sistema solar.

A Lua como arquivo natural da história cósmica

Na Terra, a maioria dos meteoritos ricos em água se desintegra ao entrar na atmosfera, o que cria um viés na coleção científica terrestre. A Lua, porém, não tem atmosfera densa: seus impactos são preservados por bilhões de anos, funcionando como um arquivo geológico quase intacto da história de colisões do sistema solar.

Por isso, o achado tem valor duplo. Além de confirmar o papel dos asteroides na distribuição da água, ele transforma o solo lunar em uma ferramenta científica essencial para investigar o passado cósmico da Terra e de outros planetas rochosos.

“O fato de termos identificado fragmentos de condritas CI no regolito lunar sugere que esses meteoritos desempenharam um papel crucial na entrega de água e compostos voláteis à Terra primitiva”, explicou o grupo de pesquisa.

Um novo olhar sobre a origem da vida

Os autores destacam ainda que a metodologia empregada — combinar assinaturas isotópicas e análises texturais em amostras microscópicas — pode ser aplicada em futuras missões a Marte, Fobos ou asteroides distantes, ampliando o rastreamento das rotas cósmicas da água.

A Chang’e-6, que pousou em uma das regiões mais inexploradas da Lua, não apenas trouxe o material mais antigo já coletado do satélite, mas também lançou as bases de uma nova era da ciência planetária, em que o estudo das amostras lunares pode revelar como surgiram as condições para a vida na Terra.

 

[ Fonte: Infobae ]

 

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