A Lua parece tranquila quando a observamos do quintal, mas ela tem seus momentos de brilho inesperado. Há mais de mil anos, pessoas relatam ver clarões, faíscas ou manchas coloridas piscando por segundos em sua superfície. O fenômeno, hoje conhecido como Fenômeno Lunar Transitório (ou LTP, na sigla em inglês), ainda desafia cientistas e astrônomos.
O mistério que atravessa séculos
O primeiro registro confiável de um LTP vem do ano 557 d.C. e, desde então, mais de 2.200 observações foram catalogadas — algumas feitas por monges, outras por astrônomos profissionais. Um dos relatos mais famosos aconteceu em 1178, quando cinco monges britânicos afirmaram ver “uma tocha flamejante” saindo da Lua. O cronista medieval Gervase de Canterbury descreveu o astro “se contorcendo como uma cobra ferida”.
Durante séculos, esses relatos foram ignorados pela ciência, considerados ilusões visuais ou efeitos da atmosfera terrestre. Só no século XX o assunto começou a ser levado a sério — especialmente após o astrônomo britânico Patrick Moore testemunhar um desses flashes em 1939 e batizar o fenômeno de “fenômeno lunar transitório”.
O que são os fenômenos lunares transitórios?
De acordo com registros modernos, os LTPs podem ter cores e intensidades variadas. Alguns são manchas vermelhas ou alaranjadas; outros parecem pequenos relâmpagos brancos que duram segundos. O astrônomo soviético Nikolai Kozyrev chegou a registrar espectros de um desses eventos em 1958, reforçando que não se tratava de erro óptico.
Entre 2017 e 2023, o programa NELIOTA, da Agência Espacial Europeia (ESA), monitorou a Lua com câmeras de alta velocidade e detectou 55 flashes em apenas 90 horas de observação — uma média de quase oito por hora. Ou seja, esses fenômenos são bem mais comuns do que se imaginava.
Radônio, meteoritos ou algo mais?
As teorias tentam acompanhar o brilho desses flashes. Em 2007, o astrônomo Arlin Crotts, da Universidade Columbia, sugeriu que o gás radônio, liberado do interior da Lua, poderia explicar boa parte dos eventos. “Os LTPs se correlacionam fortemente com vazamentos de radônio lunar. Nenhum fenômeno terrestre pode imitar isso”, afirmou Crotts.
Outros cientistas preferem uma explicação mais direta: impactos de meteoritos. Sem atmosfera para proteger sua superfície, a Lua é constantemente atingida por pequenos fragmentos espaciais, que liberam energia e luz no choque. Essa hipótese é hoje a mais aceita — embora nem todos os casos se encaixem nela.
A missão Clementine, da NASA, em 1994, registrou quatro possíveis impactos luminosos, mas quando as áreas foram revisadas, não havia marcas visíveis. Ou seja, ainda há algo que escapa aos modelos atuais.
Um enigma que ainda brilha
Mesmo com satélites modernos e telescópios ultra precisos, o fenômeno lunar transitório continua cercado de dúvidas. Ele pode ser uma combinação de impactos, atividade geológica residual e vazamentos de gases subterrâneos — ou algo que ainda nem imaginamos.
O fato é que, mais de mil anos depois, a Lua ainda “pisca” para quem olha o céu no momento certo. E talvez essa piscada misteriosa seja o lembrete perfeito de que, mesmo tão próxima, ela ainda guarda segredos que a ciência não conseguiu iluminar.
[Fonte: Olhar digital]