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O mar avança, ruas desaparecem e uma cidade brasileira luta para não sumir do mapa

O que antes parecia um problema distante virou rotina angustiante. Em Atafona, no Norte Fluminense, o mar avança ano após ano, engole ruas inteiras, derruba casas e apaga referências de uma comunidade que ainda tenta resistir. Especialistas alertam: a erosão histórica que atinge o distrito pode se intensificar nos próximos anos — e o que acontece ali pode se repetir em outros pontos do litoral brasileiro.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Atafona fica no município de São João da Barra, no norte do estado do Rio de Janeiro, exatamente na foz do Rio Paraíba do Sul. É ali que rio e oceano se encontram, formando um delta construído ao longo de milhares de anos pelo acúmulo de areia e sedimentos.

Esse detalhe é crucial. Trata-se de uma planície sedimentar naturalmente instável, em que a linha entre terra e mar nunca foi fixa. Quando a cidade brasileira vê o mar engolir ruas, não se trata de um evento isolado, mas de um processo contínuo que encontra ali um território extremamente frágil.

De vila de pescadores a balneário ameaçado

O mar avança, ruas desaparecem e uma cidade brasileira luta para não sumir do mapa
© https://x.com/arthuritolol

A ocupação de Atafona começa em 1622, como uma comunidade essencialmente pesqueira. A pesca artesanal moldou o modo de vida local por séculos, com famílias inteiras ligadas ao mar.

A grande virada acontece a partir dos anos 1950, quando o distrito se transforma em balneário. Veranistas chegam, casas de praia são construídas e a urbanização avança perigosamente até a beira-mar. É nesse período que a erosão deixa de ser um movimento natural de ganho e perda de areia e passa a se tornar destruição permanente.

Com ruas e imóveis colados à orla, o avanço do mar se acelera. Regiões como o Pontal de Atafona passam a perder construções de forma contínua. Até meados dos anos 2000, mais de 200 imóveis já haviam sido destruídos. Em alguns trechos, o mar avança de 7 a 8 metros por ano.

Por que a erosão acelerou — e por que pode piorar

A explicação para o fenômeno não é simples. A frase “cidade brasileira vê o mar engolir ruas” envolve uma combinação de fatores naturais e humanos.

Do lado natural, entram a força das ondas, os ventos predominantes do nordeste e ciclos históricos de erosão costeira. Do lado humano, o impacto é ainda mais visível: construções muito próximas do mar e mais de 900 barragens espalhadas pela bacia do Rio Paraíba do Sul.

Essas barragens reduzem a vazão do rio e, principalmente, diminuem a quantidade de sedimentos que chegam à costa. Sem essa reposição natural, a praia perde sua principal defesa contra o avanço do oceano.

Há ainda um agravante global. Entre 1990 e 2020, o nível do mar na região subiu cerca de 13 centímetros. As projeções indicam que ele pode subir mais até 21 centímetros até 2050. Em um território instável como Atafona, esse aumento pode acelerar ainda mais a destruição.

Quando o impacto vai além das casas

O prejuízo não é apenas material. Quando a cidade brasileira vê o mar engolir ruas, também perde trabalho, pertencimento e memória.

Pescadores estão entre os mais afetados. Muitos perdem casa e ponto de apoio para a pesca, mas permanecem porque o mar é sustento e identidade. Com a erosão, os pontos de pesca se afastam para alto-mar, tornando a atividade mais arriscada e cara. Em pesquisas locais, 15% dos moradores apontam a redução da pesca como um dos impactos econômicos mais graves.

Há ainda problemas paralelos: cheias do Rio Paraíba do Sul invadem áreas já fragilizadas, a drenagem urbana é insuficiente e ventos fortes deslocam dunas que avançam sobre as moradias.

No setor imobiliário, casas perdem valor, são interditadas ou simplesmente desaparecem. Uma moradora, Sônia Ferreira, que já perdeu duas casas para o mar, resume o choque: “eu não tinha vista do mar quando a casa foi construída”.

Resistência diária e respostas ainda limitadas

Mesmo diante do avanço constante, Atafona também é marcada pela resistência. Em dias de ventos fortes, moradores improvisam barreiras com tábuas, sacos de areia e entulho para tentar conter o mar e as dunas.

Dentro das casas, a adaptação vira regra. Móveis elevados, eletrodomésticos fora do chão e convivência permanente com a insegurança. A Defesa Civil interdita estruturas frágeis, mas a sensação entre os moradores é de abandono.

Um dado chama atenção: 100% dos entrevistados em estudos locais nunca ouviram falar em Gerenciamento Costeiro Integrado, abordagem que propõe a articulação entre governo, comunidade e academia. Sem coordenação, a cidade brasileira vê o mar engolir ruas enquanto as soluções seguem fragmentadas.

O que pode funcionar — e o risco de errar

Existem alternativas técnicas: engordamento artificial da praia, espigões e obras para dissipar a energia das ondas. Mas todas exigem estudos detalhados da dinâmica sedimentar, monitoramento contínuo e manutenção constante.

Sem planejamento, a solução de um trecho pode agravar a erosão em outro. Exemplos pelo Brasil mostram isso. Em Balneário Camboriú, o engordamento da praia recuperou a faixa de areia, mas custou centenas de milhões e exige manutenção. No Ceará, espigões estabilizam áreas específicas, mas alteram a dinâmica ao redor. Já no litoral paulista, o replantio de restinga mostra que soluções menores também podem ajudar.

Para Atafona, qualquer decisão precisa ir além da engenharia. Está em jogo não só o território, mas a sobrevivência de uma comunidade inteira — e o alerta de que, sem ação coordenada, outras cidades brasileiras podem viver o mesmo destino.

[Fonte: Click Petroleo e Gas]

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