O aumento contínuo do nível do mar, impulsionado pelo aquecimento global, já deixou de ser uma previsão distante para se tornar uma realidade mensurável. Um novo estudo da Universidade McGill, publicado na revista npj Urban Sustainability, revela que dezenas de milhões de edifícios em países do sul global podem ser engolidos pelo mar até o final do século. A pesquisa traça um panorama alarmante sobre como o avanço das águas ameaça infraestrutura, moradias e economias inteiras.
Milhões de construções sob risco de inundação
De acordo com os dados do estudo, um aumento de apenas 0,5 metro no nível do mar — considerado o cenário mais otimista — já colocaria em risco mais de três milhões de edificações. Caso o aumento chegue a cinco metros, o número saltaria para 45 milhões; e em um cenário extremo de 20 metros, até 136 milhões de construções seriam afetadas.
As regiões mais vulneráveis incluem o nordeste da África, o sudeste asiático, o Caribe e partes da América do Sul. Em deltas e estuários como os dos rios da Prata, Amazonas, Nilo e Gâmbia, o mar poderia avançar vários quilômetros continente adentro, inundando cidades inteiras e afetando milhões de pessoas.
“O risco aumenta de forma abrupta quando a elevação passa dos dois metros”, explicam os autores do estudo.
Infraestrutura crítica em perigo
O impacto do aumento do nível do mar não se limita às residências. Portos, refinarias, rodovias e até sítios históricos estão entre as infraestruturas mais ameaçadas.
O professor Eric Galbraith, coautor do estudo, alerta: “Todos dependemos de bens, alimentos e combustíveis que passam por portos costeiros. Se essas infraestruturas forem interrompidas, as consequências serão globais.”
Mesmo populações que vivem longe da costa sentirão os efeitos econômicos e logísticos, como encarecimento de produtos e desabastecimento de rotas comerciais.
Como foi feito o mapeamento
Os cientistas analisaram mais de 840 milhões de edifícios distribuídos entre a África, o Sudeste Asiático e a América Central e do Sul. Para isso, utilizaram a base Open Buildings do Google, que combina imagens de satélite de alta resolução com inteligência artificial para identificar estruturas urbanas.
O modelo ajusta os dados removendo vegetação e obstáculos, permitindo calcular com precisão quais áreas ficariam submersas em diferentes cenários. O resultado é um mapa interativo disponível no Google Earth Engine, que mostra, com clareza, como o mar pode redesenhar o litoral global.
Estratégias de adaptação e resposta
Os autores defendem três medidas prioritárias para enfrentar a crise:
- Construção de barreiras físicas em áreas costeiras estratégicas.
- Redefinição do uso do solo urbano, evitando novas construções em zonas de risco.
- Retirada planejada de edificações nas áreas mais vulneráveis.
A pesquisadora Maya Willard-Stepan, autora principal, alerta: “Não existe escapatória completa do aumento do nível do mar. Mas quanto antes as comunidades começarem a se preparar, maiores serão suas chances de sobrevivência.”
Um desafio global e permanente
O relatório enfatiza que o nível do mar continuará subindo por séculos, mesmo que as emissões de carbono sejam drasticamente reduzidas. As consequências vão além das perdas materiais: envolvem o desaparecimento de bairros inteiros, a perda de infraestrutura vital e o deslocamento de milhões de pessoas.
Proteger as cidades costeiras exigirá planejamento urbano, inovação tecnológica e cooperação internacional. Sem uma ação coordenada, o mapa urbano do planeta poderá mudar de forma irreversível — e o futuro de muitas cidades poderá, literalmente, afundar.