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Ciência

O minirrobô perdido sob o gelo da Antártica por 8 meses retorna com dados inéditos — e muda o que sabemos sobre o colapso das plataformas de gelo

Um pequeno robô oceanográfico Argo ficou preso sob o gelo da Antártica por quase nove meses, em uma jornada inesperada que o levou a regiões nunca antes medidas. Ao reaparecer, trouxe dados inéditos sobre temperatura, salinidade e a saúde das plataformas de gelo Denman e Shackleton — informações vitais para prever o aumento do nível do mar.
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Tempo de leitura: 3 minutos

O que parecia ser um desastre virou um dos avanços mais inesperados da oceanografia polar. Um minirrobô Argo, lançado em 2020 pela agência científica australiana CSIRO, foi arrastado por marés imprevisíveis e acabou submergindo sob o gelo da Antártica Oriental. Sem GPS, sem contato e dado como perdido, o robô reapareceu meses depois com medições impossíveis de obter por métodos tradicionais. Seus dados inauguram uma nova janela para entender como as plataformas de gelo estão reagindo ao aquecimento global.

A missão improvável do “pequeno flutuador que podia”

O Argo float é um instrumento autônomo que registra profundidade, temperatura e salinidade dos oceanos. Ele deveria operar em mar aberto — mas correntes inesperadas o empurraram para o sul, até que ele foi engolido pela plataforma de gelo Denman.

“Temíamos o pior”, escreveram os cientistas no The Conversation. Mas nove meses depois, o robô reapareceu. Dentro dele, estavam dados de regiões jamais acessadas por humanos ou equipamentos: o subgelo das plataformas Denman e Shackleton, na Antártica Oriental.

Em 2,5 anos, o flutuador registrou 195 perfis oceanográficos, tornando-se o responsável pela primeira série de medições contínuas feitas sob uma plataforma de gelo na região. Os resultados foram publicados na revista Science Advances.

Por que esses dados importam tanto

As plataformas de gelo funcionam como amortecedores que retardam a descarga de gelo dos glaciares para o oceano. Quando a água quente do mar derrete sua base, toda a estrutura pode enfraquecer, colapsar ou se fragmentar — processos que aumentam o nível do mar.

O problema? Essas plataformas chegam a ter centenas de metros de espessura, o que torna quase impossível medir diretamente o que acontece em suas bases. É aí que o mergulho acidental do Argo se transforma em um presente científico.

Durante seu período submerso, o robô mediu:

  • Temperatura da água sob o gelo

  • Salinidade em múltiplas profundidades

  • Posição relativa da base da plataforma, deduzida das “batidas” do robô contra o gelo

Esses dados revelaram um sistema térmico delicado — quente o suficiente para provocar derretimento em Denman, mas ainda estável em Shackleton.

Como rastrear um robô sem GPS debaixo do gelo?

Sem comunicação por satélite, a localização do flutuador parecia impossível de estabelecer. Mas os pesquisadores tiveram uma ideia brilhante: usar os momentos em que o robô colidia com o gelo como marcadores.

“Cada vez que ele batia a cabeça no gelo, registrava a profundidade da base da plataforma”, explicou Steve Rintoul, oceanógrafo da CSIRO e autor principal do estudo.

Comparando essas profundidades com mapas de satélite, a equipe conseguiu reconstruir a rota subterrânea do robô — uma espécie de GPS invertido.

O que o robô descobriu sobre Denman e Shackleton

As medições permitiram conclusões essenciais:

  • A plataforma Shackleton, ao norte, ainda não está exposta a águas quentes, mostrando maior estabilidade.

  • O glaciar Denman já apresenta sinais consistentes de derretimento basal, o que pode acelerar seu recuo.

  • A estrutura térmica sob ambas as plataformas parece estar “segurando” o colapso — por enquanto.

Esses resultados ajudam a reduzir incertezas nos modelos climáticos que projetam o aumento futuro do nível do mar.

O futuro dos robôs Argo em regiões extremas

Animada pelo sucesso inesperado, a equipe planeja lançar novos flutuadores em áreas pouco exploradas da Antártica. Ainda assim, há desafios:

Mesmo assim, os cientistas veem enorme potencial. “Essas medições ajudarão a melhorar os modelos climáticos e reduzir a incerteza sobre o futuro aumento do nível do mar”, escreveram.

 

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