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Ciência

O mistério da formação da Antártida pode finalmente ter sido resolvido por pesquisadores

Cientistas descobriram por que a Antártida se transformou em um continente de gelo milhões de anos antes do Ártico. A explicação muda a forma de entender a história climática do planeta.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Durante décadas, pesquisadores tentaram responder a uma pergunta que parecia desafiar a lógica da evolução climática da Terra: por que a Antártida congelou muito antes do Ártico, mesmo quando o planeta era significativamente mais quente do que hoje? Um novo estudo internacional sugere que a resposta não estava na atmosfera nem nos oceanos, mas em processos geológicos ocorridos nas profundezas do planeta há dezenas de milhões de anos.

A origem da camada de gelo da Antártida começou muito antes do que se imaginava

O mistério da formação da Antártida pode finalmente ter sido resolvido por pesquisadores
© Pexels

Uma pesquisa liderada pela Universidade de Southampton, em parceria com cientistas da Alemanha, dos Países Baixos e da Itália, apresentou uma nova explicação para um dos maiores enigmas da climatologia terrestre. O trabalho, publicado na revista Science, conclui que a formação da gigantesca camada de gelo da Antártida Oriental foi desencadeada por mudanças geológicas iniciadas muito antes da glaciação propriamente dita.

Segundo os pesquisadores, o processo começou ainda durante o período Jurássico, entre aproximadamente 201 e 143 milhões de anos atrás, quando a Antártida começou a se separar da África em consequência do movimento das placas tectônicas.

Essa ruptura provocou um fenômeno lento, mas gigantesco. Ao longo de cerca de 100 milhões de anos, partes da Antártida Oriental foram sendo gradualmente elevadas, formando extensos planaltos e cadeias montanhosas.

Quando essas regiões atingiram altitudes suficientemente elevadas, as condições climáticas mudaram de forma decisiva.

Mesmo em uma época em que a temperatura média global era cerca de 5 °C superior à atual, a grande altitude permitiu que neve e gelo permanecessem durante todo o ano, dando início à formação da imensa camada de gelo antártica há cerca de 34 milhões de anos.

Hoje, essa massa congelada representa a maior reserva de gelo do planeta. Se derretesse completamente, teria potencial para elevar o nível médio dos oceanos em aproximadamente 52 metros.

Ondas profundas do manto terrestre moldaram o continente gelado

O mistério da formação da Antártida pode finalmente ter sido resolvido por pesquisadores
© Pexels

Para reconstruir essa história, a equipe utilizou modelos computacionais capazes de simular a evolução da superfície da Antártida Oriental ao longo de cerca de 100 milhões de anos.

As simulações revelaram que o principal responsável pela elevação do continente foi um fenômeno conhecido como ondas do manto.

Essas correntes de rochas extremamente quentes se propagam lentamente abaixo da crosta terrestre após a separação das placas tectônicas. Com o passar de milhões de anos, elas empurraram gradualmente a superfície da Antártida para cima.

Esse processo também contribuiu para a formação das Montanhas Gamburtsev, atualmente escondidas sob quilômetros de gelo.

Segundo os modelos, há cerca de 45 milhões de anos grande parte da região já ultrapassava dois quilômetros de altitude.

Esse detalhe foi decisivo.

Em média, a temperatura diminui aproximadamente 1 °C a cada 100 metros de elevação. Com isso, o ambiente tornou-se frio o suficiente para impedir que a neve acumulada derretesse durante o verão.

A partir desse momento, geleiras começaram a crescer, unindo-se progressivamente até formar a enorme camada de gelo que hoje cobre praticamente toda a Antártida Oriental.

O gelo iniciou um efeito em cadeia que alterou o clima da Terra

A pesquisa mostra que a formação da calota polar desencadeou uma série de mudanças capazes de modificar o clima global.

À medida que a superfície coberta por gelo aumentava, mais radiação solar era refletida de volta para o espaço.

Esse mecanismo, conhecido como efeito gelo-albedo, reduziu ainda mais a temperatura da região e contribuiu para um resfriamento médio de aproximadamente 1 °C em todo o planeta.

Mesmo assim, esse resfriamento não foi suficiente para provocar a formação de grandes mantos de gelo no Ártico.

Segundo os pesquisadores, o Hemisfério Norte apresentava altitudes significativamente menores, o que dificultava o acúmulo permanente de neve, mesmo com a queda das temperaturas globais.

Outro fator reforçou esse processo.

O ar frio retém menos vapor d’água, um dos principais gases responsáveis pelo efeito estufa natural da Terra. Com menos vapor na atmosfera, diminuiu também a retenção de calor, favorecendo um resfriamento adicional que acelerou a expansão da camada de gelo até alcançar o litoral antártico.

Para os autores, essa descoberta modifica a compreensão sobre a origem das eras glaciais.

Em vez de considerar apenas fatores atmosféricos e oceânicos, o estudo mostra que processos ocorridos nas profundezas do planeta podem preparar o terreno para grandes transformações climáticas milhões de anos depois.

Além de explicar o passado da Terra, os pesquisadores acreditam que esse conhecimento poderá ajudar a compreender futuros pontos de inflexão do sistema climático, ampliando a capacidade de prever como mudanças geológicas e ambientais podem influenciar o clima em escalas de tempo extremamente longas.

[Fonte: Clarin]

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