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Ciência

Sob 3 quilômetros de gelo na Antártida, cientistas encontram estrutura gigantesca formada em Gondwana que pode mudar o que sabemos sobre a origem do continente

Uma equipe internacional de pesquisadores descobriu uma enorme estrutura geológica escondida sob a Antártida Oriental. O achado fornece as evidências mais sólidas até agora sobre o processo que levou à fragmentação do supercontinente Gondwana e ainda ajuda a explicar o comportamento atual da camada de gelo antártica.
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Tempo de leitura: 3 minutos

A Antártida continua revelando segredos escondidos sob sua espessa camada de gelo. Desta vez, cientistas identificaram uma gigantesca estrutura geológica localizada cerca de três quilômetros abaixo da superfície da Antártida Oriental. A formação, invisível até hoje, oferece novas pistas sobre a separação do antigo supercontinente Gondwana e pode alterar a forma como os geólogos compreendem tanto a evolução tectônica da região quanto o futuro da maior massa de gelo do planeta.

Uma estrutura colossal escondida sob o gelo

Antartida Hielo Gelo
© NASA

A descoberta foi publicada na revista científica Nature Geoscience e reúne pesquisadores de diversas universidades e institutos europeus, liderados por Egidio Armadillo, Daniele Rizzello, Pietro Balbi, Alessandro Ghirotto e Martin Siegert.

Os cientistas identificaram uma estrutura batizada de Província das Bacias em Leque da Antártida Oriental (Eastern Antarctica Fan-Shaped Basin Province – EAFBP). Ela é composta por 30 grandes bacias subglaciais em formato de “V” que se espalham radialmente a partir de um ponto localizado próximo ao Polo Sul, na latitude de 86,4° sul.

As principais bacias se estendem por mais de 1.500 quilômetros, desde a Baía de Prydz até as Montanhas Transantárticas, formando um padrão em leque de dimensões continentais.

Como os pesquisadores enxergaram o que está escondido

Mais de 99% da superfície da Antártida Oriental permanece coberta por uma espessa camada de gelo, tornando praticamente impossível observar diretamente a rocha localizada abaixo dela.

Para superar esse desafio, os pesquisadores combinaram diferentes técnicas geofísicas, incluindo radar de penetração no gelo, levantamentos gravimétricos e análises sísmicas. A integração desses dados permitiu reconstruir, com um nível de detalhe inédito, a topografia do terreno escondido sob quilômetros de gelo.

O resultado revelou um padrão geológico extremamente organizado, algo que dificilmente poderia ser explicado por processos aleatórios.

Evidências da fragmentação de Gondwana

Segundo os autores, a estrutura se formou durante um processo de extensão rotacional intraplaca, ocorrido antes da fragmentação de Gondwana.

Esse supercontinente existiu entre o Neoproterozoico e o Jurássico e reunia áreas que hoje correspondem à América do Sul, África, Antártida, Austrália, Índia e Península Arábica.

O estudo sugere que essa intensa reorganização tectônica produziu três efeitos importantes. No lado oeste, favoreceu a elevação das Montanhas Gamburtsev. Na região leste, provocou uma rotação de aproximadamente 20 graus nas Montanhas Transantárticas. Já ao norte, criou uma zona de fraqueza na litosfera que posteriormente controlou a separação entre a Antártida e a Austrália.

Esses processos ocorreram há cerca de 150 milhões de anos, mas continuam influenciando a geografia do continente até hoje.

A geologia antiga ainda controla o gelo da Antártida

Antártida
© NASA

Os pesquisadores afirmam que essa estrutura não teve impacto apenas na formação do continente.

As bacias subglaciais identificadas influenciaram diretamente o desenvolvimento da camada de gelo da Antártida Oriental, que começou a se consolidar há cerca de 34 milhões de anos.

Atualmente, elas determinam a posição de alguns dos principais glaciares de escoamento do continente, incluindo os glaciares Totten, Denman e Amery.

Isso significa que fenômenos geológicos iniciados durante a separação de Gondwana ainda exercem influência sobre a dinâmica do gelo antártico e, consequentemente, sobre a estabilidade da região.

Descoberta pode melhorar previsões sobre o nível do mar

A área ocupada pela EAFBP concentra aproximadamente metade da camada de gelo da Antártida Oriental, quantidade suficiente para elevar o nível global dos oceanos em cerca de 28 metros caso derreta completamente.

Segundo os pesquisadores, várias dessas bacias encontram-se abaixo do nível atual do mar, tornando parte da região mais vulnerável ao avanço das águas oceânicas em um cenário de aquecimento global.

Além disso, o novo modelo geológico poderá ajudar a corrigir inconsistências existentes nas reconstruções da separação entre a Antártida e a Austrália. Algumas simulações atuais apresentam sobreposições incompatíveis entre as massas continentais, problema que a nova interpretação tectônica pode resolver.

Outro resultado importante do estudo é a confirmação de que esse processo de extensão rotacional ocorreu exclusivamente na Antártida. Os cientistas não encontraram evidências de uma estrutura semelhante na Austrália, reforçando a ideia de que essa transformação geológica foi um fenômeno particular do continente antártico e desempenhou um papel decisivo na configuração que conhecemos atualmente.

 

[ Fonte: Ok Diario ]

 

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