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Ciência

O núcleo da Terra tem ouro suficiente para cobrir todos os continentes — e cientistas descobriram que ele pode estar “vazando”

O núcleo terrestre concentra mais de 99,999% do ouro e de outros metais preciosos do planeta. Durante décadas, cientistas acreditaram que esse material estava completamente isolado. Rochas vulcânicas do Havaí, porém, revelaram que a história pode ser diferente.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Existe uma fortuna gigantesca escondida sob nossos pés, mas nenhum método de mineração conhecido seria capaz de alcançá-la. Durante a formação da Terra, metais com afinidade pelo ferro afundaram em direção ao centro do planeta enquanto seu interior ainda estava parcialmente derretido.

Entre esses elementos estava o ouro. Por isso, todo o ouro encontrado atualmente na crosta terrestre representa apenas uma fração minúscula da quantidade total existente no planeta.

Uma estimativa clássica do geólogo Bernard Wood, da Macquarie University, ajuda a colocar essa riqueza em perspectiva. Se fosse possível retirar todo o ouro concentrado no interior da Terra e espalhá-lo pelos continentes, seria possível formar uma camada com aproximadamente 50 centímetros de espessura.

O problema é que essa fortuna parecia não apenas inacessível, mas também geologicamente isolada. O núcleo começa a cerca de 2.900 quilômetros abaixo da superfície, e os cientistas acreditavam que a fronteira entre ele e o manto praticamente impedia a troca de metais.

Um estudo publicado na Nature em 2025, no entanto, apresentou uma das evidências mais fortes de que essa fronteira não é totalmente impermeável.

Rochas do Havaí revelaram uma assinatura inesperada

Satélites Europeus Acabaram De Revelar Um Dos Movimentos Mais Estranhos Já Detectados No Núcleo Da Terra
© Joshua Earle – Unsplash

Pesquisadores liderados por Nils Messling e Matthias Willbold, da Universidade de Göttingen, analisaram basaltos vulcânicos encontrados no Havaí. A equipe examinou com enorme precisão os isótopos de dois elementos: rutênio e tungstênio.

O rutênio é particularmente interessante porque, assim como o ouro, é altamente siderófilo. Isso significa que possui forte afinidade pelo ferro.

Durante a formação da Terra, grande parte desse elemento migrou para o núcleo metálico. Como consequência, sua concentração no manto é muito menor. Pequenas diferenças entre seus isótopos podem, portanto, funcionar como uma espécie de assinatura química capaz de revelar a origem de determinados materiais.

Foi justamente isso que chamou a atenção dos pesquisadores.

Os basaltos havaianos apresentaram uma proporção de rutênio-100 diferente daquela normalmente observada no manto terrestre. Quando essa característica foi analisada junto aos sinais encontrados no tungstênio, surgiu uma explicação surpreendente.

Os resultados são mais compatíveis com a presença de uma pequena quantidade de material originário do núcleo da Terra.

Uma assinatura do núcleo conseguiu chegar à superfície

Nucleo Tierra
© Freepik

A possível explicação envolve as chamadas plumas do manto. Essas gigantescas colunas de material extremamente quente sobem das regiões profundas do planeta durante milhões de anos.

Nesse processo, elas poderiam incorporar quantidades minúsculas de material localizado próximo à fronteira entre o núcleo e o manto e transportá-las lentamente em direção à superfície.

O Havaí está justamente localizado sobre um desses sistemas profundos, o que explicaria por que essa assinatura química apareceu nas rochas vulcânicas da região.

Existe, porém, uma diferença importante entre dizer que o núcleo está “vazando” e imaginar ouro líquido subindo até a superfície.

Os pesquisadores não encontraram diretamente ouro proveniente do núcleo. O que detectaram foi uma assinatura isotópica de rutênio e tungstênio que indica a existência de uma troca de materiais entre diferentes regiões do interior terrestre.

Como o ouro compartilha com o rutênio uma forte afinidade pelo núcleo metálico, a descoberta sugere que outros elementos siderófilos também podem participar desse processo. Por enquanto, porém, essa possibilidade continua sendo uma inferência geológica.

Isso não significa que exista uma mina de ouro sob o Havaí

A descoberta também não indica que enormes depósitos de ouro estejam chegando à superfície.

As quantidades de material transportadas são extremamente pequenas, enquanto o processo acontece ao longo de escalas de tempo geológicas. Portanto, não existe qualquer perspectiva de transformar esse fenômeno em uma nova fonte de mineração.

O verdadeiro valor da descoberta está em outro ponto.

Durante muito tempo, o núcleo terrestre foi tratado como um reservatório praticamente isolado do restante do planeta. As novas evidências mostram que essa separação pode não ser absoluta.

Materiais aprisionados nas profundezas da Terra durante bilhões de anos conseguem, em quantidades minúsculas, atravessar quase 3.000 quilômetros pelo interior do planeta e finalmente aparecer incorporados em rochas vulcânicas na superfície.

A fortuna escondida no núcleo continua completamente fora do nosso alcance. Mas agora sabemos que, pelo menos em escala microscópica, parte dela talvez não esteja tão isolada quanto imaginávamos.

 

[ Fonte: Clarín ]

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