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Tecnologia

22% dos jovens latino-americanos já tratam a IA como uma amiga

A IA deixou de servir apenas para estudar ou trabalhar. Entre jovens latino-americanos, chatbots começam a ocupar um espaço muito mais íntimo, mas essa confiança traz novos riscos.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Primeiro vieram as perguntas rápidas. Depois, trabalhos acadêmicos, ideias, textos e tarefas profissionais. Agora, para uma parcela dos jovens, a inteligência artificial atravessou uma fronteira bem mais pessoal. Chatbots estão sendo usados para conversar, buscar apoio e abordar assuntos que algumas pessoas evitariam discutir até mesmo com amigos. Uma nova pesquisa mostra a dimensão desse comportamento na América Latina e revela um contraste preocupante entre confiança e segurança digital.

Para 22% dos jovens, a IA já ocupa o lugar de uma “amiga”

22% dos jovens latino-americanos já tratam a IA como uma amiga
© Pexels

A inteligência artificial está deixando de ser percebida exclusivamente como uma ferramenta de produtividade entre integrantes da Geração Z na América Latina.

Segundo um estudo da Kaspersky, 22% dos jovens latino-americanos consultados afirmam utilizar a IA como uma espécie de amiga, seja para manter conversas informais ou buscar algum tipo de apoio emocional.

Outro número torna essa relação ainda mais interessante: 21% recorrem aos chatbots para conversar sobre dúvidas ou assuntos que prefeririam não compartilhar com outras pessoas.

A mudança mostra como interfaces conversacionais podem gerar uma sensação de proximidade muito diferente daquela proporcionada por mecanismos tradicionais de busca.

Em vez de digitar palavras-chave e receber uma lista de páginas, o usuário mantém um diálogo. Pode explicar um problema, acrescentar contexto, fazer novas perguntas e receber respostas formuladas diretamente para aquela conversa.

Essa dinâmica ajuda a tornar a experiência mais natural e, para alguns usuários, mais íntima.

O levantamento foi realizado em março de 2026 com 7.200 participantes de 18 países. Os resultados apresentados para a América Latina consideram entrevistados de Brasil, México e Colômbia.

Mas conversar sobre assuntos pessoais está longe de ser a única função que a nova geração encontrou para essas ferramentas.

Quase quatro em cada dez já utilizam IA praticamente todos os dias

22% dos jovens latino-americanos já tratam a IA como uma amiga
© Pexels

A pesquisa mostra que 38% dos jovens latino-americanos da Geração Z usam inteligência artificial diariamente ou quase diariamente.

Os motivos ajudam a mostrar como rapidamente a tecnologia entrou na rotina.

A busca por informações aparece em primeiro lugar, mencionada por 60% dos entrevistados. Em seguida estão os estudos, com 51%, enquanto 50% utilizam IA para gerar ideias.

O trabalho também já ocupa espaço relevante: 43% recorrem a essas ferramentas em atividades profissionais, incluindo análise de informações, redação e preparação de relatórios.

O cenário revela uma tecnologia capaz de circular entre ambientes que antes pareciam separados.

O mesmo chatbot utilizado pela manhã para resumir um documento pode aparecer algumas horas depois ajudando em uma tarefa acadêmica e, à noite, ser utilizado para conversar sobre uma preocupação pessoal.

É justamente essa versatilidade que cria uma questão delicada.

Quanto mais natural se torna conversar com uma inteligência artificial, mais fácil pode ser esquecer que, do outro lado, continua existindo um serviço digital.

E os números sobre segurança indicam que nem todos mantêm essa distinção em mente.

A confiança cresce mais rápido que os cuidados com os dados

Apesar da familiaridade da Geração Z com tecnologia, apenas 41% dos jovens pesquisados na região dizem adotar sempre medidas de proteção ao utilizar serviços de inteligência artificial.

Entre esses cuidados estão evitar o compartilhamento de informações confidenciais e verificar respostas utilizando outras fontes confiáveis.

Outros 52% afirmam tomar essas precauções apenas algumas vezes, enquanto 7% reconhecem que nunca adotam medidas de proteção.

Essa diferença se torna importante quando as conversas passam a envolver temas pessoais.

Uma interação aparentemente inocente pode terminar incluindo documentos, informações financeiras, senhas, mensagens privadas ou outros dados que não deveriam ser enviados indiscriminadamente a serviços online.

Existe ainda outro risco menos evidente: confiar excessivamente nas respostas.

Uma IA pode produzir uma explicação extremamente convincente e, mesmo assim, apresentar informações incorretas, incompletas ou desatualizadas.

Quanto maior a sensação de proximidade com a ferramenta, mais fácil pode ser baixar a guarda diante dessas respostas.

Conversar naturalmente não transforma um chatbot em uma pessoa

Para María Isabel Manjarrez, pesquisadora sênior de segurança para a América Latina na Kaspersky, o avanço das interações pessoais com IA exige uma mudança na maneira como pensamos sobre segurança digital.

O problema não está apenas em revelar uma informação confidencial. Também existe o risco de tomar decisões sem verificar aquilo que a ferramenta respondeu ou cair em páginas falsas que exploram a popularidade dos serviços de inteligência artificial.

A recomendação dos especialistas é relativamente simples: tratar uma conversa com IA com o mesmo cuidado dedicado a qualquer outro serviço conectado à internet.

Isso significa evitar compartilhar senhas, documentos de identidade, informações bancárias ou conversas privadas. Respostas importantes também devem ser verificadas em fontes confiáveis, especialmente quando envolvem assuntos acadêmicos, financeiros, jurídicos ou outras decisões relevantes.

A pesquisa não significa que 22% dos jovens estejam substituindo amizades humanas por máquinas. O dado mostra algo mais específico e talvez igualmente interessante: uma parcela significativa já se sente confortável o suficiente para atribuir aos chatbots uma função de companhia ou apoio.

Essa transformação provavelmente continuará à medida que as conversas com sistemas de IA se tornarem mais naturais.

O desafio será aprender uma nova regra de convivência digital: uma ferramenta pode conversar como alguém próximo, lembrar o contexto e produzir respostas aparentemente pessoais. Mas a sensação de intimidade não deve ser confundida com garantia de privacidade, precisão ou confiança absoluta.

[Fonte: Pisapapeles]

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