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Ciência

O ovo passou anos como vilão do coração, mas a ciência descobriu que a história é bem mais complicada

Presente no café da manhã de milhões de pessoas, o ovo carrega há décadas uma fama controversa. Novas pesquisas, porém, mostram que olhar apenas para a gema pode ser um erro.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Poucos alimentos comuns provocaram tanta discussão quanto o ovo. Durante décadas, seu colesterol colocou a gema no centro das preocupações com a saúde cardiovascular e levou muita gente a reduzir seu consumo. Mas a ciência avançou, grandes estudos acompanharam milhares de pessoas e a resposta deixou de ser tão simples. Afinal, o que realmente acontece com o coração de quem coloca um ovo no prato todos os dias?

A origem de uma fama que atravessou décadas

A preocupação com o ovo não surgiu do nada. A gema contém colesterol dietético e, durante muito tempo, predominou a ideia de que ingerir alimentos ricos nessa substância elevaria diretamente o colesterol no sangue e, consequentemente, aumentaria o risco de doenças cardiovasculares.

Era uma associação aparentemente lógica: se existe colesterol no alimento, comer mais dele deveria significar mais colesterol circulando pelo organismo.

O problema é que o corpo humano não funciona de maneira tão linear. Com o avanço das pesquisas sobre nutrição, cientistas perceberam que a relação entre colesterol alimentar, colesterol sanguíneo e saúde cardiovascular envolve diversas outras variáveis.

A resposta também pode mudar de uma pessoa para outra. Genética, peso corporal, atividade física, condições metabólicas e, principalmente, o conjunto da alimentação fazem diferença.

Isso obrigou pesquisadores a olhar para o ovo de outra maneira. Em vez de analisar apenas o colesterol presente na gema, tornou-se necessário observar o que acontece com pessoas que realmente mantêm esse alimento em sua rotina durante muitos anos.

Um dos maiores estudos trouxe uma resposta inesperada

O ovo passou anos como vilão do coração, mas a ciência descobriu que a história é bem mais complicada
© Nadin Sh – Pexels

Uma ampla análise acompanhou mais de 200 mil adultos nos Estados Unidos durante décadas. Os pesquisadores também avaliaram dados de estudos que, juntos, envolveram mais de 1,5 milhão de participantes.

Depois de considerar diferentes aspectos relacionados ao estilo de vida e à alimentação, os resultados não apontaram uma associação entre o consumo de aproximadamente um ovo por dia e um risco maior de doenças cardiovasculares.

Isso não transforma o ovo em um alimento que pode ser consumido sem qualquer contexto. Na verdade, a descoberta ajuda a mostrar por que concentrar toda a discussão em um único ingrediente pode ser enganoso.

Imagine dois cafés da manhã. No primeiro, o ovo aparece acompanhado de alimentos pouco processados, frutas, vegetais ou cereais integrais. No segundo, chega ao prato com bacon, salsicha, manteiga e outros produtos ricos em gordura saturada.

Embora ambos incluam um ovo, nutricionalmente são refeições bastante diferentes.

É justamente por isso que recomendações mais recentes passaram a considerar com maior atenção o padrão alimentar completo, em vez de tentar identificar um único culpado.

A ciência ainda encontrou alguns sinais de alerta

A discussão, entretanto, não está completamente encerrada.

Uma revisão publicada em 2025 analisou 14 metanálises relacionadas ao consumo de ovos e diferentes indicadores de saúde. Alguns dos trabalhos encontraram associações com níveis ligeiramente maiores de colesterol LDL, popularmente chamado de colesterol “ruim”, além de determinados desfechos cardiovasculares.

Há uma ressalva importante: os próprios pesquisadores classificaram a qualidade das evidências disponíveis como muito baixa. Por isso, concluíram que os resultados não eram suficientes para recomendar que as pessoas simplesmente eliminassem os ovos da alimentação.

Outros estudos observacionais também chegaram a conclusões diferentes entre si. Alguns relacionaram um consumo elevado de ovos a determinados riscos cardiovasculares, enquanto outros não encontraram uma associação significativa.

Parte dessa divergência tem uma explicação importante. Estudos observacionais acompanham pessoas vivendo normalmente, e separar completamente um hábito de todos os demais é extremamente difícil.

Quem consome muitos ovos também pode apresentar diferenças no peso, atividade física, consumo de gordura saturada, tabagismo ou restante da alimentação. Assim, uma associação estatística não demonstra automaticamente que o ovo seja responsável pelo resultado observado.

Então, comer um ovo todos os dias faz mal ao coração?

O ovo passou anos como vilão do coração, mas a ciência descobriu que a história é bem mais complicada
© Mustafa Bashari – Unsplash

Para pessoas saudáveis e sem condições médicas específicas, as evidências disponíveis não permitem afirmar que consumir um ovo diariamente, isoladamente, prejudique o coração.

A American Heart Association considera que indivíduos saudáveis podem incluir até um ovo inteiro por dia dentro de um padrão alimentar considerado saudável.

A situação exige mais atenção quando já existem fatores de risco. Pessoas com níveis elevados de colesterol LDL, por exemplo, precisam observar não apenas o colesterol presente nos alimentos, mas também a quantidade de gorduras saturadas consumida ao longo do dia.

Isso significa que a resposta para a pergunta que acompanha o ovo há décadas depende menos de simplesmente contar quantas unidades aparecem no prato e mais de entender o restante da alimentação.

Depois de anos carregando boa parte da culpa pelos problemas cardiovasculares, o ovo parece ter sido julgado de maneira simplificada demais. Um ovo diário não transforma automaticamente uma alimentação em perigosa para o coração. Da mesma forma, sua presença também não torna saudável um café da manhã carregado de gordura saturada e alimentos ultraprocessados.

No fim, a ciência aponta para uma conclusão menos dramática, mas muito mais útil: quando o assunto é coração, é o conjunto do prato que merece atenção.

[Fonte: El Sol del Centro]

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