Pular para o conteúdo
Ciência

Cientistas encontram uma ligação inesperada entre um nutriente comum e um tipo agressivo de câncer

Um novo estudo identificou uma possível conexão entre uma gordura presente em muitos alimentos e o comportamento de um tipo agressivo de tumor. Mas há uma diferença crucial nessa descoberta.
Por

Tempo de leitura: 3 minutos

A relação entre alimentação e câncer costuma produzir manchetes capazes de transformar ingredientes cotidianos em vilões da noite para o dia. Só que a biologia é muito mais complicada. Uma nova pesquisa investigou uma gordura bastante comum na alimentação moderna e encontrou um mecanismo que pode ajudar certos tumores a crescer. O resultado chama atenção, mas também exige cuidado para não transformar uma descoberta molecular em uma conclusão que o estudo não sustenta.

O que os pesquisadores descobriram dentro das células

O protagonista da pesquisa é o ácido linoleico, um ácido graxo ômega-6 essencial que o organismo não consegue produzir sozinho e precisa obter por meio da alimentação. Ele aparece em grandes quantidades em óleos vegetais, como os de soja, milho e girassol, além de estar presente em diversos alimentos processados.

Pesquisadores da Weill Cornell Medicine investigaram sua relação com o câncer de mama triplo-negativo, uma forma particularmente agressiva da doença e que apresenta menos opções de terapias direcionadas.

A descoberta mais interessante não está simplesmente na presença do ácido linoleico, mas no que pode acontecer quando ele encontra determinadas células tumorais.

Segundo os experimentos, a molécula consegue se ligar a uma proteína chamada FABP5, responsável pelo transporte de ácidos graxos dentro das células. Essa interação pode ativar a mTORC1, uma via celular envolvida no controle do crescimento, metabolismo e produção de proteínas.

Quando esse mecanismo fica excessivamente estimulado, as células podem encontrar condições favoráveis para crescer e se multiplicar mais rapidamente.

Os testes em camundongos reforçaram essa hipótese. Animais alimentados com grandes quantidades de ácido linoleico desenvolveram tumores maiores. Os pesquisadores também encontraram níveis elevados de FABP5 e ácido linoleico em amostras relacionadas a pacientes com câncer de mama triplo-negativo.

É justamente aqui que a descoberta ganha importância: ela pode revelar uma vulnerabilidade metabólica específica desse tipo de tumor.

Câncer1
© Magnific

A pesquisa não diz que óleo de cozinha causa câncer

Apesar do impacto do resultado, existe uma diferença enorme entre identificar um mecanismo capaz de favorecer o crescimento de um tumor e provar que determinado alimento provoca câncer em pessoas saudáveis.

O estudo não demonstra que consumir óleo de soja, milho ou girassol cause câncer de mama.

Essa distinção é fundamental. Evidências epidemiológicas disponíveis até agora não apontam uma relação clara entre maior consumo de ácido linoleico e aumento geral do risco de câncer de mama.

Uma revisão publicada em 2023, por exemplo, reuniu dados de 14 estudos envolvendo mais de 350 mil mulheres e não encontrou associação significativa entre a ingestão desse ácido graxo e o risco global de desenvolver a doença.

Outras pesquisas também chegaram a resultados neutros ou até potencialmente favoráveis. Isso sugere que o efeito de um nutriente não pode ser analisado isoladamente, ignorando metabolismo, tipo de tumor, quantidade consumida e todo o restante da alimentação.

O novo trabalho pode, portanto, ser mais importante para a pesquisa de tratamentos do que para criar uma nova lista de alimentos proibidos. Compreender a interação entre ácido linoleico, FABP5 e mTORC1 pode ajudar futuramente na busca por estratégias capazes de bloquear esse processo em determinados tumores.

O contexto da alimentação continua sendo decisivo

A descoberta também reforça uma dificuldade antiga da ciência nutricional: alimentos raramente podem ser classificados simplesmente como “bons” ou “ruins” com base em uma única reação molecular.

O risco de câncer envolve uma combinação de fatores, incluindo genética, idade, consumo de álcool, tabagismo, atividade física, peso corporal e padrão alimentar.

Por isso, a evidência disponível continua favorecendo uma alimentação variada, com maior presença de vegetais, frutas, leguminosas, cereais integrais e castanhas, além de menor consumo de produtos ultraprocessados.

Pesquisas de longo prazo também associam padrões alimentares baseados principalmente em alimentos vegetais pouco processados a melhores resultados de saúde.

O estudo encontrou um mecanismo pelo qual o ácido linoleico pode favorecer o crescimento de determinados tumores em condições específicas, mas isso não significa que os óleos vegetais comuns sejam, por si só, causadores de câncer.

A próxima etapa será descobrir quanto esse mecanismo realmente importa em seres humanos e se ele pode ser transformado em uma ferramenta contra o câncer.

Partilhe este artigo

Artigos relacionados