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Ciência

O que acontece no intestino pode determinar quanto da quimioterapia chega ao tumor

Cientistas descobriram que algo aparentemente distante dos tumores pode interferir no tempo que certos medicamentos permanecem no organismo — e isso pode mudar a estratégia contra o câncer.
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Tempo de leitura: 5 minutos

A quimioterapia pode ser poderosa, mas existe um obstáculo que acontece antes mesmo de o medicamento chegar ao tumor. O próprio organismo possui mecanismos capazes de retirar essas partículas da circulação rapidamente. Agora, pesquisadores encontraram uma conexão inesperada entre esse processo e um ecossistema que costuma ser associado principalmente à digestão. A descoberta, feita em modelos animais, sugere que o caminho percorrido por alguns tratamentos contra o câncer pode depender de muito mais do que imaginávamos.

O obstáculo que aparece antes de o medicamento chegar ao tumor

Quando uma quimioterapia é administrada, o objetivo parece simples: fazer o medicamento chegar ao câncer em quantidade suficiente para agir sobre as células tumorais. Na prática, porém, o caminho é muito mais complicado.

Alguns tratamentos utilizam nanopartículas, como lipossomas ou estruturas baseadas em albumina, para transportar os princípios ativos pelo organismo. A estratégia pode melhorar a distribuição dos medicamentos, mas essas partículas também são reconhecidas como elementos que precisam ser filtrados.

É aí que entra o fígado. Entre suas diversas funções está a remoção de partículas presentes na circulação, realizada em parte pelas chamadas células de Kupffer, um tipo especializado de macrófago.

O problema é que esse mecanismo de defesa pode retirar uma parcela do medicamento antes que ele tenha tempo suficiente para alcançar o tumor.

Pesquisadores do MD Anderson Cancer Center descobriram, porém, que essa filtragem não funciona de maneira completamente independente. O comportamento dessas células parece receber sinais vindos de outro lugar: o intestino.

Mais precisamente, os cientistas encontraram uma relação entre a microbiota intestinal, determinadas substâncias produzidas durante o metabolismo e a maneira como o fígado lida com as nanopartículas utilizadas na quimioterapia.

A pergunta seguinte foi inevitável: se as bactérias do intestino conseguem influenciar esse processo, seria possível modificar temporariamente essa relação para permitir que uma quantidade maior do medicamento permanecesse circulando?

As bactérias revelaram uma conexão inesperada

Para investigar a hipótese, os pesquisadores recorreram ao metronidazol, um antibiótico conhecido e utilizado clinicamente há décadas. Nos animais estudados, o tratamento alterou a composição da microbiota intestinal e reduziu determinadas populações bacterianas.

Essa mudança teve uma consequência que chamou a atenção da equipe. Também foram alterados os níveis de determinados ácidos biliares, moléculas que participam de processos metabólicos e cuja transformação é influenciada pelas bactérias intestinais.

Essas alterações chegaram ao fígado e afetaram o comportamento das células de Kupffer. Elas passaram a capturar as nanopartículas da quimioterapia com menor intensidade.

O resultado foi significativo: o medicamento permaneceu mais tempo na circulação e conseguiu alcançar uma concentração maior nos tumores.

Nos experimentos, o tempo de permanência na corrente sanguínea chegou a aproximadamente o dobro. Os efeitos foram observados em modelos de quatro tipos de câncer: cólon, mama, melanoma e pâncreas. Nesses animais, o crescimento dos tumores foi retardado e a sobrevivência aumentou.

Mas ainda havia uma dúvida importante. Será que o efeito vinha diretamente do antibiótico ou da transformação provocada por ele na comunidade de bactérias?

Para descobrir isso, os pesquisadores fizeram outro experimento. Eles transferiram a microbiota de animais tratados com metronidazol para animais que não possuíam uma microbiota própria. O material transferido não apresentava quantidades detectáveis do antibiótico.

Mesmo assim, os animais receptores apresentaram novamente o fenômeno: as nanopartículas permaneceram por mais tempo na circulação e chegaram em maior quantidade aos tumores.

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© Jo Panuwat D- ShutterStock

O intestino pode estar ajudando a decidir o destino do medicamento

Os resultados apontam para um mecanismo mais complexo do que simplesmente “bactérias boas” ou “bactérias ruins”. O que parece importar é a maneira como determinadas comunidades microbianas alteram o ambiente metabólico do organismo.

As análises mostraram que as células de Kupffer mudaram de estado. Em vez de permanecerem altamente ativas na captura das nanopartículas, passaram a apresentar um comportamento mais silencioso.

Essa alteração reduziu a capacidade do fígado de retirar o medicamento da corrente sanguínea.

A descoberta amplia uma linha de pesquisas que já investigava a influência da microbiota na resposta aos tratamentos contra o câncer. A diferença é que, neste caso, as bactérias não parecem estar apenas modulando o sistema imunológico. Elas podem estar interferindo diretamente na distribuição e na eliminação do próprio medicamento.

Isso muda a perspectiva. A eficácia de uma quimioterapia nanoparticulada pode depender não apenas do medicamento escolhido ou das características do tumor, mas também da interação entre o tratamento, o fígado e o ecossistema microbiano do paciente.

Ainda assim, é importante não transformar o resultado em uma promessa clínica imediata. Os experimentos foram realizados em modelos animais, e resultados em camundongos não significam automaticamente que a mesma estratégia funcionará em pessoas.

Os pesquisadores já consideram caminhos diferentes para reproduzir o efeito sem necessariamente depender de antibióticos. Uma possibilidade seria trabalhar com combinações específicas de bactérias. Outra seria atuar diretamente sobre as vias relacionadas aos ácidos biliares.

Isso pode ser particularmente importante porque alterar a microbiota com antibióticos também pode provocar efeitos indesejados, principalmente quando o uso é prolongado.

O próximo passo pode ser personalizar o caminho da quimioterapia

A descoberta abre uma possibilidade ainda mais interessante: no futuro, a composição da microbiota ou determinados marcadores metabólicos poderiam ajudar a prever como cada paciente processará certos medicamentos nanoparticulados.

Em vez de pensar apenas em qual medicamento funciona melhor contra determinado tumor, os médicos poderiam eventualmente considerar também como o organismo daquele paciente distribui, retém e elimina o tratamento.

Essa abordagem ainda está distante da prática clínica, mas representa uma mudança importante de perspectiva. O tumor não é o único protagonista quando se tenta fazer um medicamento funcionar.

O organismo também participa dessa batalha — e, em alguns casos, pode estar retirando o tratamento antes que ele tenha oportunidade de cumprir sua função.

A resposta para o título, portanto, é sim: o intestino pode ter uma peça importante do quebra-cabeça que determina quanto de uma quimioterapia nanoparticulada consegue chegar ao tumor. A razão não está simplesmente na digestão, mas na complexa comunicação entre microbiota, metabolismo e fígado.

Se futuras pesquisas confirmarem o mecanismo em humanos, essa conexão poderá abrir uma nova frente na oncologia: não apenas desenvolver medicamentos melhores, mas também modificar o ambiente biológico do paciente para que eles tenham mais tempo e oportunidade de chegar ao lugar onde são necessários.

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