Pular para o conteúdo
Ciência

Um raro visitante cruzou o Sistema Solar e trouxe pistas sobre como outros mundos são formados

Um raro objeto vindo do espaço interestelar permitiu aos astrônomos investigar diretamente materiais formados ao redor de outra estrela e revelou uma composição química que chamou atenção.
Por

Tempo de leitura: 4 minutos

Quase tudo o que sabemos sobre outros sistemas planetários chega até nós na forma de luz captada por telescópios. De vez em quando, porém, o Universo oferece uma oportunidade extraordinária: um fragmento formado ao redor de outra estrela atravessa nossa própria vizinhança cósmica. Foi exatamente isso que aconteceu com o 2I/Borisov, um cometa cuja velocidade, trajetória e composição deram aos cientistas uma amostra rara de um ambiente planetário distante.

Uma trajetória revelou que aquele cometa não pertencia ao Sistema Solar

Um raro visitante cruzou o Sistema Solar e trouxe pistas sobre como outros mundos são formados
© Pexels

O 2I/Borisov foi descoberto pelo astrônomo Gennady Borisov em 30 de agosto de 2019. Pouco depois, cálculos de sua órbita deixaram claro que não se tratava de mais um integrante da enorme população de cometas que circula pelo Sistema Solar.

A pista decisiva estava em sua trajetória.

Enquanto objetos gravitacionalmente ligados ao Sol percorrem órbitas fechadas, o Borisov apresentava uma trajetória fortemente hiperbólica, com excentricidade em torno de 3,35. Sua velocidade também ultrapassava 30 quilômetros por segundo.

Em outras palavras, o visitante estava rápido demais para permanecer preso à gravidade solar.

Os cálculos mostraram que ele atravessaria nossa região, contornaria o Sol e seguiria novamente em direção ao espaço interestelar. Antes de chegar aqui, provavelmente havia viajado pelo vazio entre as estrelas durante um período imenso.

Isso transformou imediatamente o objeto em uma oportunidade científica excepcional.

O Borisov tornou-se o segundo objeto interestelar confirmado atravessando o Sistema Solar, depois do misterioso 1I/’Oumuamua. Mas havia uma diferença fundamental: o novo visitante apresentava atividade cometária claramente identificável.

E os gases liberados por ele escondiam uma informação ainda mais interessante.

A química do Borisov revelou um ambiente muito diferente do nosso

Quando um cometa se aproxima do Sol, sua superfície começa a aquecer. Parte do material congelado sublima, liberando gases e poeira que formam a característica coma ao redor do núcleo.

Esse processo permitiu aos astrônomos analisar a composição química do Borisov sem precisar chegar fisicamente até ele.

Observações realizadas com o ALMA, conjunto de radiotelescópios instalado no Chile, detectaram uma quantidade particularmente elevada de monóxido de carbono.

A proporção chamou atenção porque era superior à encontrada na maioria dos cometas conhecidos do Sistema Solar.

Esse detalhe oferece uma pista sobre o lugar onde o objeto pode ter surgido. O monóxido de carbono é extremamente volátil, e sua preservação em grandes quantidades indica formação ou permanência prolongada em um ambiente excepcionalmente frio.

O Borisov, portanto, pode ter nascido nas regiões externas e geladas do disco de material que circundava sua estrela original.

Essa descoberta tem implicações importantes. Os cometas funcionam como arquivos congelados das condições existentes durante a formação de sistemas planetários. Estudar sua composição significa investigar parte da matéria-prima disponível quando planetas estavam começando a nascer.

No caso do Borisov, essa matéria-prima veio de uma estrela que não é o Sol.

Um pedaço de outro sistema planetário chegou praticamente até nossa porta

É justamente isso que torna objetos interestelares tão valiosos.

Astrônomos conseguem estudar atmosferas de exoplanetas e analisar a luz proveniente de estrelas distantes, mas raramente têm acesso a material físico formado em outros sistemas planetários.

Com o Borisov, a situação foi diferente.

Ao analisar os gases e a poeira liberados pelo cometa, os cientistas conseguiram investigar diretamente compostos preservados desde sua formação.

As observações sugerem também que alguns processos fundamentais podem se repetir em diferentes regiões da galáxia.

Uma possibilidade é que o Borisov tenha sido expulso de seu sistema original pela interação gravitacional com um planeta gigante. Eventos desse tipo podem lançar pequenos corpos para fora de seus sistemas, condenando-os a vagar pelo espaço interestelar.

Se isso acontece com frequência, a Via Láctea pode estar repleta de objetos semelhantes atravessando silenciosamente o espaço entre as estrelas.

Diversos instrumentos foram mobilizados para aproveitar a passagem. O ALMA analisou moléculas presentes no gás, enquanto o telescópio espacial Hubble produziu imagens que ajudaram a restringir as estimativas do tamanho do núcleo.

O Very Large Telescope (VLT), no Chile, também examinou características da luz refletida pela poeira, encontrando semelhanças interessantes com alguns dos cometas mais primitivos do Sistema Solar.

O verdadeiro tesouro estava preservado no gelo

Uma das características mais fascinantes do Borisov é justamente seu estado relativamente preservado.

Cometas pertencentes ao nosso sistema podem passar repetidamente perto do Sol. Cada aproximação aquece suas superfícies, libera material e modifica gradualmente suas camadas externas.

Um visitante interestelar pode ter uma história bastante diferente.

Depois de ser expulso de seu sistema natal, o Borisov provavelmente passou um enorme período viajando pelas regiões extremamente frias entre as estrelas. Isso ajudou a conservar materiais antigos que poderiam guardar informações sobre seu ambiente de origem.

Análises encontraram proporções excepcionalmente elevadas de monóxido de carbono em relação à água, reforçando a ideia de uma formação em condições muito frias.

Isso não significa que todos os sistemas planetários sejam radicalmente diferentes do nosso. Pelo contrário, algumas características do cometa também apresentaram semelhanças com objetos locais.

É justamente essa combinação que interessa aos astrônomos.

Cada novo visitante interestelar permite comparar a química do Sistema Solar com aquela encontrada em outros berçários planetários. Com uma amostra maior, será possível descobrir quais ingredientes são comuns pela galáxia e quais dependem das condições particulares ao redor de cada estrela.

O Borisov já deixou nossa vizinhança e continua sua viagem pelo espaço. Mas, por alguns meses, a humanidade teve algo extraordinariamente raro ao alcance de seus telescópios: matéria formada em outro sistema planetário passando pelo nosso próprio quintal cósmico.

[Fonte: Mixvale]

Partilhe este artigo

Artigos relacionados