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Ciência

Um detalhe quase invisível durante o sono pode revelar pistas sobre o Alzheimer muito antes da memória falhar

Pequenas interrupções que acontecem enquanto dormimos estão chamando a atenção dos cientistas. Um novo estudo encontrou uma associação que pode ajudar a entender precocemente a vulnerabilidade ao Alzheimer.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Dormir oito horas não significa necessariamente passar a noite inteira em um sono contínuo e profundo. O cérebro pode atravessar pequenas interrupções que sequer chegam a ser percebidas pela pessoa. Durante muito tempo, esses episódios pareceram apenas parte natural da arquitetura do sono. Agora, pesquisadores descobriram que a frequência com que eles aparecem pode esconder informações importantes sobre uma doença que costuma dar sinais somente muitos anos depois.

O cérebro pode deixar pistas enquanto dormimos

Um detalhe quase invisível durante o sono pode revelar pistas sobre o Alzheimer muito antes da memória falhar
© Shawn Day – Unsplash

Pesquisadores da Universidade de Liège, na Bélgica, decidiram investigar se determinadas características do sono poderiam estar relacionadas à predisposição genética para o Alzheimer. O trabalho, realizado pelo centro de pesquisas GIGA Neurosciences com apoio da Fundação Stop Alzheimer’s, foi publicado na revista científica Sleep.

A equipe analisou os padrões de sono de mais de 500 pessoas saudáveis, incluindo adultos jovens e indivíduos de meia-idade. O objetivo não era diagnosticar Alzheimer, mas procurar sinais muito anteriores aos sintomas tradicionais da doença, como problemas de memória e alterações cognitivas.

Foi justamente entre os participantes de meia-idade que surgiu a associação mais interessante. Pessoas com maior predisposição genética para desenvolver Alzheimer apresentaram também uma frequência mais elevada de determinados microdespertares durante a noite. Essa relação não foi observada da mesma maneira entre os adultos mais jovens.

Os microdespertares são períodos extremamente breves de atividade cerebral. Eles não necessariamente fazem alguém abrir os olhos, levantar da cama ou sequer perceber que o sono foi interrompido. Ainda assim, podem fragmentar sua continuidade e modificar a organização dos diferentes estágios pelos quais o cérebro passa durante a noite.

A descoberta reforça uma pergunta que há anos intriga especialistas: seria possível encontrar sinais muito sutis das doenças neurodegenerativas durante o sono, décadas antes de seus sintomas mais evidentes aparecerem?

O risco genético não significa que a doença vai aparecer

Um detalhe quase invisível durante o sono pode revelar pistas sobre o Alzheimer muito antes da memória falhar
© Mikhail Nilov – Pexels

Para investigar essa possibilidade, os cientistas recorreram ao chamado risco poligênico. Trata-se de uma estimativa que reúne a influência de diferentes variantes genéticas relacionadas à probabilidade de uma pessoa desenvolver determinada condição.

Isso é especialmente relevante no Alzheimer porque a doença não pode ser explicada simplesmente pela hereditariedade. Ter determinadas variantes genéticas não significa necessariamente desenvolver a condição, assim como alguém sem uma predisposição genética elevada ainda pode apresentar Alzheimer.

Por esse motivo, o índice utilizado pelos pesquisadores não funciona como uma previsão individual. Ele não consegue dizer quem terá ou não a doença no futuro. O que os cientistas fizeram foi comparar essa estimativa genética com diferentes características do sono.

Foi então que os microdespertares ganharam destaque.

Entre os participantes de maior idade dentro da amostra, uma frequência mais elevada dessas pequenas interrupções apareceu associada a um risco genético maior para Alzheimer. O detalhe mais intrigante é que essas pessoas ainda eram relativamente jovens e não apresentavam sinais clínicos da doença.

Isso não significa que acordar várias vezes durante a noite provoque Alzheimer, nem que uma pessoa que tenha sono fragmentado esteja destinada a desenvolver a condição. O estudo aponta uma associação, e ainda será necessário compreender exatamente quais mecanismos biológicos explicam essa conexão.

Uma pequena região do cérebro entrou no radar dos pesquisadores

Uma das hipóteses discutidas pelos cientistas envolve o locus cerúleo, pequena região localizada no tronco encefálico que desempenha funções importantes relacionadas à vigília, à atenção e à regulação do sono.

Segundo Gilles Vandewalle, diretor de pesquisa do Fundo para a Pesquisa Científica (FNRS) na Universidade de Liège, essa estrutura cerebral é difícil de observar, mas parece participar de mecanismos iniciais relacionados à doença.

A possibilidade levantada pelos pesquisadores é particularmente interessante porque determinados padrões de microdespertares poderiam estar ligados a processos que favorecem o acúmulo de proteínas envolvidas no Alzheimer. Puneet Talwar, do GIGA Neurosciences, destaca que essas pequenas interrupções, portanto, podem não ser tão insignificantes quanto parecem.

Ainda há um longo caminho antes que uma noite de sono possa ser utilizada como instrumento confiável para avaliar vulnerabilidade individual. Mas existe uma vantagem evidente: estudar o sono é relativamente acessível e, com tecnologias cada vez mais sofisticadas de monitoramento, pode fornecer grandes quantidades de informações sem procedimentos altamente invasivos.

O sono pode passar de indicador a ferramenta de prevenção

A pesquisa abre duas possibilidades importantes. A primeira é transformar determinadas características do sono em marcadores capazes de ajudar na identificação precoce de pessoas mais vulneráveis ao Alzheimer.

Isso poderia ser particularmente valioso porque as alterações biológicas relacionadas à doença podem começar muito antes dos primeiros esquecimentos relevantes. Quanto mais cedo for possível reconhecer indivíduos de maior risco, maior poderá ser a janela para acompanhamento e futuras estratégias preventivas.

A segunda possibilidade vai além do diagnóstico.

Os pesquisadores querem compreender se melhorar a qualidade do sono poderia ajudar a prevenir ou retardar processos associados à doença em pessoas geneticamente predispostas. Essa hipótese ainda precisa ser investigada e não significa que simplesmente dormir melhor seja suficiente para evitar Alzheimer.

Mesmo assim, ela coloca o sono em uma posição cada vez mais importante na pesquisa sobre neurodegeneração. Em vez de ser apenas um reflexo do estado de saúde do cérebro, ele poderia eventualmente se transformar em um ponto de intervenção.

Para Lucie Leroux, da Fundação Stop Alzheimer’s, essa é justamente uma das perspectivas mais promissoras: o sono pode funcionar não apenas como indicador de saúde, mas também como uma possível ferramenta sobre a qual seria possível agir.

[Fonte: TN]

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