A ideia parece lógica: quanto mais jovem o cérebro, maior sua capacidade de se recuperar de uma lesão. A plasticidade cerebral permite reorganizar conexões e se adaptar depois de um dano, algo que tende a diminuir com o envelhecimento. Mas essa vantagem pode ter um lado inesperado.
Pesquisadores da Texas A&M University descobriram que ratos jovens submetidos a uma lesão cerebral traumática desenvolveram, com o passar do tempo, maior atividade associada à epilepsia pós-traumática. Nos animais mais velhos, o cenário foi diferente: houve menos sinais de epilepsia, mas mais inflamação cerebral e problemas de memória.
Os resultados mostram que envelhecer não significa necessariamente se recuperar pior. A idade parece mudar o tipo de consequência que pode surgir depois de uma lesão.
Cérebros jovens tiveram mais convulsões no longo prazo

Publicado na revista Experimental Neurology, o estudo analisou a lesão cerebral traumática, conhecida pela sigla TBI em inglês. Esse tipo de trauma pode deixar consequências neurológicas durante muito tempo, mesmo quando a recuperação inicial parece positiva.
Durante quatro meses, os pesquisadores monitoraram continuamente a atividade cerebral dos animais. Também avaliaram alterações cognitivas, neurológicas e estruturais.
Foi então que encontraram dois padrões bastante diferentes.
Nos ratos mais velhos, as convulsões começaram mais cedo após a lesão. Com o tempo, porém, estabilizaram-se e permaneceram em níveis relativamente baixos.
Nos jovens ocorreu praticamente o contrário. A atividade convulsiva demorou mais para aparecer, mas aumentou progressivamente ao longo dos meses.
A descoberta é especialmente relevante porque a epilepsia pós-traumática pode surgir muito tempo depois de uma lesão na cabeça e continua sendo uma das complicações mais difíceis de prever.
A plasticidade cerebral pode ter um lado negativo
Segundo Samba Reddy, professor de neurociência e terapêutica experimental da Texas A&M University, os resultados mostram que considerar cérebros jovens simplesmente mais resistentes pode ser uma interpretação incompleta.
A mesma plasticidade que ajuda o cérebro jovem a reorganizar suas conexões também poderia favorecer mudanças indesejadas.
Depois de uma lesão, novos circuitos neuronais podem se formar durante o processo de adaptação. Em determinadas circunstâncias, porém, essa reorganização poderia contribuir para o desenvolvimento de redes cerebrais capazes de produzir convulsões.
Isso não significa que a plasticidade cerebral seja prejudicial. Ela continua sendo fundamental para a recuperação. O estudo indica apenas que seus efeitos depois de um traumatismo podem ser mais complexos do que se imaginava.
Cérebros mais velhos apresentaram mais inflamação
Os animais mais velhos também tiveram algumas vantagens inesperadas.
Segundo os pesquisadores, eles recuperaram determinadas capacidades motoras e de coordenação mais rapidamente. Os animais jovens, por outro lado, continuaram apresentando dificuldades de equilíbrio e coordenação durante mais tempo.
Quando os cientistas analisaram a memória, porém, o cenário se inverteu.
Os ratos mais velhos tiveram maior dificuldade para manter informações no longo prazo, mesmo quando conseguiam aprender inicialmente uma determinada tarefa.
Para os pesquisadores, isso mostra que o envelhecimento não torna necessariamente toda a recuperação mais difícil. Em vez disso, ele altera o caminho seguido pelo cérebro depois do trauma.
A resposta imunológica do cérebro também mudou com a idade
Outra diferença importante apareceu na neuroinflamação.
Trata-se da resposta inflamatória do sistema nervoso diante de uma agressão. Inicialmente, esse mecanismo ajuda o cérebro a reagir ao dano. Quando permanece ativo por muito tempo, porém, pode prejudicar seu funcionamento.
Nos animais mais velhos, os pesquisadores observaram uma resposta mais intensa da microglia, conjunto de células que participa da defesa imunológica do cérebro.
Também houve maior remodelação sináptica, processo no qual as conexões entre os neurônios são modificadas.
O estudo não demonstra que essas alterações provoquem demência. Ainda assim, inflamação persistente, mudanças nos circuitos cerebrais e problemas de memória são sinais que os pesquisadores consideram importantes para futuras investigações.
A quantidade de neurônios perdidos não explicou as diferenças
Para entender melhor o que estava acontecendo, os cientistas analisaram o hipocampo, região do cérebro essencial para a memória e também relacionada ao desenvolvimento de convulsões.
O resultado trouxe outra surpresa.
Apesar das diferenças de idade, os dois grupos apresentaram níveis semelhantes de perda de neurônios.
Isso indica que simplesmente contar quantas células cerebrais foram perdidas após o trauma não é suficiente para prever as consequências futuras.
O mais importante pode ser a maneira como o cérebro reorganiza seus circuitos e responde ao dano durante os meses seguintes.
A idade pode mudar a forma de tratar uma lesão cerebral

Os resultados ainda vêm de modelos animais e, portanto, não podem ser aplicados diretamente aos seres humanos. Mas eles levantam uma possibilidade importante para futuras pesquisas.
Tratamentos contra as consequências de traumatismos cerebrais talvez precisem considerar a idade do paciente de maneira mais específica.
Em pessoas mais jovens, futuras terapias poderiam tentar impedir alterações nos circuitos cerebrais que favorecem o desenvolvimento de convulsões.
Em pacientes mais velhos, a prioridade poderia ser diferente, com maior atenção à inflamação cerebral, à memória e ao declínio cognitivo.
A principal conclusão é que um cérebro jovem não necessariamente sai de uma lesão com menos consequências. Ele pode simplesmente seguir um caminho diferente — e algumas dessas alterações podem levar meses ou até mais tempo para aparecer.
[ Fonte: Infobae ]