Nos últimos anos, o Mais Médicos tem sido apontado como uma das principais políticas de atenção básica do país. Criado em 2013, o programa sofreu críticas, reformulações e voltou a ganhar força no atual governo. Agora, entra no centro de uma crise diplomática entre Brasília e Washington, após uma decisão polêmica do governo Trump que mira autoridades brasileiras e expõe tensões antigas sobre a participação de médicos cubanos no projeto.
Vistos cancelados e alvos da medida
O anúncio veio no dia 13 de agosto, quando o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, comunicou a revogação de vistos de brasileiros ligados à criação do Mais Médicos. Entre os atingidos estão familiares de Alexandre Padilha, que liderou a implementação do programa em 2013, além de Mozart Sales, secretário de Atenção Especializada à Saúde, e Alberto Kleiman, hoje coordenador-geral da COP30 na OTCA.
A justificativa americana aponta a suposta ligação dos nomes envolvidos ao que chamam de “exportação de trabalho forçado de Cuba”, em referência à presença de médicos cubanos no Brasil até 2018.
Reação do governo brasileiro
Indignado, Padilha criticou o alcance da medida, que afetou até sua filha de 10 anos. O ministro classificou a decisão como covarde e atribuiu sua origem a pressões do clã Bolsonaro nos EUA. Ele lembrou ainda que o programa já não conta com médicos cubanos e hoje tem mais de 92% dos profissionais brasileiros.
Mozart Sales também se manifestou, chamando a sanção de injusta e reforçando que o Mais Médicos representa a essência do SUS, por garantir atendimento universal e gratuito.
Contexto político e escalada de retaliações
O episódio ocorre em meio a uma escalada de tensões entre Trump e o governo Lula. Em julho, Washington impôs tarifas de 50% a produtos brasileiros e sancionou o ministro Alexandre de Moraes, em meio a acusações de perseguição política contra Jair Bolsonaro. A decisão contra o Mais Médicos reforça a estratégia americana de reativar sanções ligadas a Cuba e, ao mesmo tempo, pressionar figuras centrais do governo brasileiro.
O que é e como funciona o programa
O Mais Médicos foi criado para suprir a carência de profissionais em áreas remotas e vulneráveis do Brasil. Além do atendimento, promove formação em Medicina de Família e Comunidade e fortalece a Estratégia Saúde da Família, responsável por 80% da resolução de problemas de saúde no SUS.
Na retomada em 2023, o programa atingiu 28 mil vagas em mais de 4.500 municípios, beneficiando 73 milhões de brasileiros. Reconhecido pela população, segue como uma das maiores iniciativas de provisão médica do mundo, mesmo diante de pressões políticas e internacionais.
A disputa em torno do Mais Médicos mostra como um programa de saúde pode ultrapassar fronteiras e se transformar em peça de um jogo político internacional, com impactos diretos na diplomacia e na vida de milhões de brasileiros.
Fonte: BBC