A capital cubana, Havana, amanheceu em um silêncio incomum no dia 5 de janeiro. Ruas vazias, lojas fechadas e nenhuma música ecoando das janelas abertas. Era o primeiro dia de luto nacional pelos 32 soldados cubanos mortos durante a operação dos EUA para capturar o líder venezuelano Nicolás Maduro em Caracas, dois dias antes. Por 48 horas, o país observou um duelo para homenagear aqueles que o governo descreveu como “heróis que resistiram aos agressores”.
Fora o clima solene, o cotidiano pouco mudou. Ambulantes seguem oferecendo charutos a preço reduzido, hospitais enfrentam apagões frequentes e os prédios do centro histórico continuam a perder pedaços de concreto sob o olhar atento de quem passa. A escassez permanece — mas o pânico, não.
Ameaças externas, nervos internos

Em 3 de janeiro, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, afirmou que autoridades cubanas deveriam temer se tornar o próximo alvo. O presidente Donald Trump reforçou a pressão, pedindo que Cuba “faça um acordo” ou enfrente consequências. Ainda assim, em Havana, a reação foi contida.
“Eles sempre nos subestimaram”, disse Antonio, taxista que lembra o fracasso da invasão da Baía dos Porcos, em 1961 — episódio frequentemente citado como prova de resistência nacional. A Invasão da Baía dos Porcos virou referência para sustentar a convicção de que uma repetição não prosperaria. “Cubanos são diferentes.”
Antonio também contrasta a trajetória cubana com a história venezuelana, marcada por traições políticas — da conspiração contra Simón Bolívar às tentativas de golpe contra Hugo Chávez. Para ele, soberania e lealdade seguem centrais na identidade cubana.
Crise profunda, expectativas limitadas
Cuba atravessa o período mais difícil desde os anos 1990. Cortes de energia, falta d’água, moeda estrangeira escassa, turismo em queda e preços em alta moldam o dia a dia. Sanções impostas após a revolução de 1959 — e endurecidas por Trump depois de um breve degelo sob Barack Obama — agravaram o cenário. Ainda assim, poucos veem em Washington uma tábua de salvação.
Analistas ocidentais alertam para o impacto do fim do petróleo venezuelano, mas muitos cubanos discordam. “Há alternativas”, diz Yadira, funcionária doméstica. A realidade é mais complexa: México superou a Venezuela como principal fornecedor, respondendo por quase metade do petróleo cubano em 2025. Pressionado pelos EUA, o governo da presidente Claudia Sheinbaum confirmou a continuidade das exportações — sem ampliação.
Perder o petróleo venezuelano não derruba Cuba por si só, mas aprofunda desigualdades. Cidades, dependentes de transporte e eletricidade, sofrem mais. Como crises passadas mostraram, a distribuição falha mesmo quando há alimentos disponíveis.
Fissuras sob a resiliência

Por baixo da postura estoica, surgem críticas discretas à gestão interna. Um guia turístico, que preferiu não se identificar, fala de repressão, falta de remédios e promessas não cumpridas. Engenheiro de formação, nunca alcançou a prosperidade esperada; seus filhos emigraram para a Espanha. “Nada funciona”, resume.
Essa ambivalência define o momento: rejeição a uma mudança imposta de fora, combinada ao desejo de transformar o país por dentro. Trump não é visto como solução, mas suas ameaças reforçam a sensação de que algo precisa mudar.
Cubanos não esperam uma invasão. Esperam, sim, dias mais difíceis — e a chance de construir um futuro em casa. À medida que a crise venezuelana evolui, o olhar para fora é atento, não por medo de repetição, mas pela consciência de que, no Caribe, ondas regionais sempre chegam à costa.
[ Fonte: The Conversation ]