Imagine entrar em um cômodo escuro e acender uma lanterna. Intuitivamente, você espera que a luz viaje em linha reta até iluminar o ambiente. No mundo que vemos todos os dias, esse comportamento parece óbvio.
Mas, na escala dos átomos, a realidade é muito diferente.
Segundo a mecânica quântica, a luz não percorre apenas um único caminho. Em vez disso, uma partícula de luz considera simultaneamente todas as trajetórias possíveis antes que uma delas seja observada. Essa ideia, que parece desafiar o senso comum, está no centro da física quântica e ajuda a explicar como funciona o universo em suas menores escalas.
Além de revolucionar nossa compreensão da natureza, esses princípios estão sendo utilizados para desenvolver uma nova geração de computadores muito mais poderosos do que os atuais.
A realidade quântica não funciona como o mundo cotidiano

Na vida diária, tudo parece ter um estado bem definido.
Uma bola está sobre a mesa ou não está. Uma lâmpada está acesa ou apagada. Mesmo que ninguém esteja olhando, presumimos que esses objetos continuam existindo exatamente da mesma forma.
Na mecânica quântica, porém, essa lógica deixa de funcionar.
Em escalas extremamente pequenas, partículas como elétrons, fótons e átomos não possuem um estado completamente definido antes de serem medidas. Em vez disso, elas existem em uma combinação de possibilidades ao mesmo tempo.
Isso não significa que falte informação sobre o sistema. Segundo a teoria quântica, a própria realidade ainda não “escolheu” um resultado definitivo.
O que é a superposição quântica?
Esse comportamento recebe o nome de superposição.
Nessa condição, uma partícula pode ocupar diferentes estados simultaneamente. Ela pode estar em um lugar, em outro ou até em várias posições ao mesmo tempo, do ponto de vista matemático da teoria.
O exemplo mais famoso dessa ideia é o experimento mental do gato de Schrödinger.
Na proposta do físico austríaco Erwin Schrödinger, um gato permanece dentro de uma caixa fechada ligado a um experimento quântico. Enquanto ninguém observa o interior da caixa, a mecânica quântica descreve o sistema como uma combinação em que o gato está vivo e morto ao mesmo tempo. Somente quando a caixa é aberta ocorre a definição de um único resultado.
Embora o experimento seja apenas uma analogia, a superposição foi confirmada repetidamente em experimentos realizados com partículas subatômicas.
Por que os estados quânticos são tão frágeis?

Manter uma superposição não é simples.
Qualquer interação com o ambiente pode destruir esse estado delicado. Calor, vibrações, campos eletromagnéticos ou até colisões com partículas ao redor são suficientes para fazer o sistema perder seu comportamento quântico.
Os físicos chamam esse fenômeno de decoerência.
Uma forma simples de imaginar esse processo é pensar em uma moeda girando no ar. Enquanto ela continua girando, ainda não sabemos se o resultado será cara ou coroa. De maneira semelhante, uma partícula em superposição mantém várias possibilidades simultaneamente.
Quando ocorre uma medição, porém, apenas um resultado permanece.
O mistério do colapso quântico
A passagem de vários estados possíveis para apenas um resultado recebe o nome de colapso da função de onda.
Apesar de ser um dos conceitos fundamentais da mecânica quântica, os cientistas ainda discutem exatamente por que esse processo acontece.
Uma comparação útil é com um serviço de streaming de música.
Antes de apertar o botão de reprodução, milhões de músicas permanecem disponíveis na plataforma. Quando você escolhe uma delas, apenas aquela faixa passa a tocar.
Na mecânica quântica acontece algo semelhante: antes da medição, diversos resultados permanecem possíveis. No instante da observação, apenas um deles se torna a realidade observada.
Einstein nunca aceitou completamente essa ideia

Embora tenha sido um dos fundadores da física moderna, Albert Einstein nunca se sentiu confortável com a interpretação probabilística da mecânica quântica.
Sua famosa frase “Deus não joga dados com o Universo” expressava justamente sua resistência à ideia de que processos fundamentais da natureza fossem governados por probabilidades em vez de leis determinísticas.
Décadas depois, inúmeros experimentos confirmaram as previsões da mecânica quântica, mostrando que o comportamento probabilístico das partículas faz parte da própria natureza.
Hoje, esse conhecimento deixou de ser apenas uma curiosidade científica. Ele serve de base para tecnologias como sensores ultrassensíveis, criptografia quântica e, principalmente, os computadores quânticos, que exploram superposição e outros efeitos quânticos para realizar cálculos que seriam praticamente impossíveis para os computadores tradicionais.
[ Fonte: Forbes ]