Astrônomos fizeram justamente esse cálculo usando a luz de centenas de milhares de galáxias. O resultado foi um tom muito próximo do bege ou branco-creme. Ele ganhou até um apelido: “cosmic latte”, ou latte cósmico.
Por que o Universo parece preto?

A explicação começa pela enorme distância entre estrelas e galáxias.
Quando observamos o céu noturno, grande parte do nosso campo de visão não recebe luz visível suficiente para estimular nossos olhos. Por isso, percebemos um fundo predominantemente escuro pontuado por estrelas.
Isso, porém, é diferente de perguntar qual seria a cor média da luz produzida pelo Universo.
Para responder a essa segunda pergunta, é necessário reunir a luz de um enorme número de estrelas e galáxias, analisar suas diferentes frequências e descobrir qual tonalidade surgiria caso tudo fosse combinado.
Foi exatamente isso que pesquisadores fizeram no início dos anos 2000.
Astrônomos misturaram a luz de mais de 200 mil galáxias
Os cientistas utilizaram dados do 2dF Galaxy Redshift Survey, um dos grandes levantamentos astronômicos realizados para mapear galáxias e estudar sua distribuição pelo cosmos.
A análise considerou a luz de mais de 200 mil galáxias.
Em vez de observar cada uma separadamente, os pesquisadores combinaram seus espectros para produzir uma espécie de espectro médio do Universo.
Um espectro mostra como a quantidade de luz se distribui entre diferentes comprimentos de onda. Com essas informações, foi possível converter a luz combinada em uma cor que pudesse ser representada de maneira semelhante às tonalidades que vemos em uma tela.
O resultado ficou muito distante do azul profundo ou do preto normalmente associados ao espaço.
A verdadeira cor recebeu o nome de “latte cósmico”
A tonalidade calculada pelos astrônomos é um branco levemente bege, semelhante à cor de um café com bastante leite.
Por isso, ela acabou recebendo informalmente o nome de “cosmic latte”.
Uma representação bastante conhecida dessa tonalidade utiliza o código hexadecimal #FFF8E7.
O nome não surgiu imediatamente. Depois da descoberta, diferentes sugestões foram consideradas para batizar a cor média do cosmos, até que a comparação com um café com leite acabou se popularizando.
Mas existe uma história ainda mais curiosa por trás do resultado.
Antes do bege, cientistas disseram que o Universo era verde

Quando os pesquisadores divulgaram inicialmente seus cálculos, o resultado indicava uma tonalidade completamente diferente.
O Universo teria uma espécie de verde entre o turquesa e o aguamarinha.
O resultado chamou atenção, mas havia um problema: estava errado.
Um erro no processamento utilizado para converter o espectro cósmico em uma cor perceptível alterou a tonalidade final. Depois que o cálculo foi corrigido, o verde desapareceu e deu lugar ao atual bege esbranquiçado.
Assim nasceu o latte cósmico.
A cor do Universo também muda com o tempo
O mais interessante é que o Universo nem sempre teria apresentado exatamente a mesma tonalidade.
Quando era mais jovem, a formação de estrelas ocorria de maneira mais intensa. Havia proporcionalmente mais estrelas jovens, extremamente quentes e luminosas, responsáveis por emitir grande quantidade de luz azul.
Com o passar de bilhões de anos, a população estelar mudou.
Muitas estrelas envelheceram, enquanto o ritmo de formação de novas estrelas diminuiu. Como consequência, a contribuição de estrelas mais avermelhadas para a luz total aumentou.
Isso faz com que a cor média do Universo evolua lentamente em direção a tonalidades mais avermelhadas.
Portanto, o latte cósmico não é uma espécie de tinta que preenche o espaço.
Ele representa o resultado de uma experiência mental e matemática: reunir a luz visível das galáxias e perguntar qual cor nossos olhos perceberiam se todas essas fontes pudessem ser misturadas.
E, apesar das imagens espetaculares de nebulosas e galáxias que costumamos associar ao cosmos, a resposta é bem menos extravagante: em média, vivemos em um Universo cor de café com leite.
[ Fonte: National Geographic ]