Durante anos, trabalhadores rurais manipularam produtos que prometiam produtividade e controle de pragas. O que muitos não sabiam era que aquelas substâncias já haviam sido proibidas em outros países devido aos riscos à saúde. Hoje, as consequências ainda ecoam em comunidades inteiras da América Latina. Entre batalhas judiciais frustradas e solos contaminados, a história revela um padrão que ultrapassa fronteiras e expõe desigualdades globais.
A batalha judicial que reacendeu uma ferida antiga

Em fevereiro de 2026, um tribunal francês rejeitou um pedido de indenização apresentado por trabalhadores agrícolas da Nicarágua contra multinacionais norte-americanas. Eles alegam ter adoecido ou ficado estéreis após anos de exposição ao pesticida conhecido como Nemagón, utilizado em plantações de banana entre as décadas de 1960 e 1980.
O produto continha dibromocloropropano (DBCP), substância posteriormente associada à infertilidade masculina e a outras doenças graves. Embora tenha sido proibido nos Estados Unidos em 1977, continuou sendo exportado e utilizado em países da América Latina por vários anos.
Na região de Chinandega, onde o pesticida foi amplamente aplicado, trabalhadores relataram casos de insuficiência renal crônica, problemas dermatológicos e câncer. Em 2006, tribunais nicaraguenses determinaram que empresas como Shell, Dow Chemical e Occidental Chemical deveriam pagar cerca de 640 milhões de euros às vítimas. No entanto, tentativas de executar a decisão fora do país não tiveram sucesso.
Para muitos afetados, a luta judicial tornou-se quase tão exaustiva quanto a própria doença. Pesquisadores que acompanharam o caso relatam que dezenas de trabalhadores morreram antes de qualquer reconhecimento formal. O desgaste emocional e físico, segundo especialistas em saúde pública, tornou-se parte do legado desse episódio.
Exportação de riscos e um padrão que persiste
Embora o Nemagón já não esteja em uso, o problema não se encerrou. Diversos pesticidas atualmente proibidos na União Europeia continuam sendo produzidos e exportados para países da Ásia, África e América Latina.
Organizações ambientais apontam que essa prática cria um duplo padrão regulatório. Substâncias consideradas inseguras para cidadãos europeus seguem disponíveis em mercados com menor fiscalização e menos recursos para monitoramento ambiental.
Resíduos desses produtos podem contaminar solo, ar e água, afetando não apenas trabalhadores rurais, mas também comunidades vizinhas. A exposição prolongada a herbicidas, fungicidas e inseticidas está associada a maior risco de infertilidade, abortos espontâneos, doenças respiratórias, distúrbios neurológicos e diversos tipos de câncer.
Em 2020, a Comissão Europeia anunciou a intenção de impedir que substâncias proibidas internamente fossem produzidas para exportação. Contudo, organizações da sociedade civil afirmam que o comércio desses pesticidas continuou crescendo nos anos seguintes.
Para críticos da política atual, a prática sugere que populações do chamado Sul Global recebem um nível de proteção inferior ao garantido aos cidadãos europeus.
Comunidades expostas e a dificuldade de transição
Na Costa Rica, estudos acadêmicos identificaram resíduos de pesticidas como bromacil e clorotalonil em solos e até na água potável de áreas agrícolas. O clorotalonil, associado à contaminação de lençóis freáticos e a riscos cancerígenos, foi proibido na União Europeia em 2019, mas sua retirada em território costarriquenho ocorreu apenas anos depois.
Pesquisadores relatam que pequenas comunidades rurais frequentemente não dispõem de recursos para monitorar níveis de contaminação ou desenvolver fontes alternativas de água limpa. A falta de infraestrutura amplia a vulnerabilidade dessas populações.
Dados recentes da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) indicam que o uso global de pesticidas dobrou desde 1990. Ainda assim, especialistas acreditam que os números reais podem ser maiores, devido à subnotificação.
Para que agricultores abandonem a dependência de químicos sintéticos, especialistas defendem apoio financeiro e técnico consistente. Transições para modelos mais sustentáveis exigem investimento inicial e reestruturação dos sistemas produtivos.
Segundo organizações ambientais, produtores que optaram por reduzir o uso de pesticidas relatam resultados positivos, incluindo diminuição de custos no longo prazo. No entanto, a mudança ocorre frequentemente sem incentivos governamentais suficientes.
Entre produtividade e responsabilidade global
O debate sobre pesticidas na América Latina envolve questões que vão além da agricultura. Ele toca em comércio internacional, responsabilidade corporativa e justiça ambiental.
A continuidade da exportação de substâncias proibidas levanta questionamentos sobre coerência regulatória e ética global. Enquanto países desenvolvidos reforçam padrões internos de segurança, mercados menos protegidos permanecem expostos a riscos semelhantes.
Para comunidades afetadas, a discussão é concreta e cotidiana. Ela se traduz em diagnósticos médicos, água contaminada e processos judiciais prolongados.
A história do Nemagón tornou-se símbolo de uma prática mais ampla. E, embora o produto tenha saído de circulação, o debate sobre responsabilidade e prevenção ainda está longe de terminar.
[Fonte: DW]