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Ciência

O Sistema Solar pode ter perdido dois planetas gigantes no passado, e as luas de Urano talvez guardem a prova que os astrônomos procuram há décadas

Novas simulações sugerem que o Sistema Solar primitivo foi ainda mais caótico do que se imaginava. Segundo os pesquisadores, algumas das estranhas características das luas de Urano podem ser evidências de que existiram planetas gigantes que acabaram expulsos para o espaço interestelar há bilhões de anos.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Hoje conhecemos oito planetas orbitando o Sol. Mas e se nem sempre tivesse sido assim? Essa é uma das hipóteses mais intrigantes da astronomia moderna. Diversos modelos sugerem que o Sistema Solar jovem pode ter abrigado mais mundos gigantes do que vemos atualmente. Em algum momento de sua história turbulenta, um ou até dois desses planetas teriam sido expulsos para o espaço interestelar, desaparecendo sem deixar rastros óbvios.

Agora, um novo estudo publicado na revista Icarus aponta que as pistas para solucionar esse mistério podem estar escondidas em um lugar inesperado: as luas de Urano.

Os pesquisadores analisaram dezenas de cenários possíveis para reconstruir os primeiros capítulos da história do Sistema Solar e chegaram a uma conclusão surpreendente. As características atuais das luas de Urano parecem difíceis de explicar sem que tenha ocorrido um período extremo de instabilidade gravitacional envolvendo mais planetas gigantes do que os existentes hoje.

Um Sistema Solar muito diferente do atual

Formação Dos Planetas1
© ESA

Os astrônomos acreditam que Júpiter, Saturno, Urano e Netuno não nasceram nas posições que ocupam atualmente.

Segundo o chamado Modelo de Nice, uma das teorias mais aceitas sobre a evolução do Sistema Solar, os gigantes gasosos se formaram mais próximos uns dos outros e também mais perto do Sol. Com o passar do tempo, interações gravitacionais provocaram migrações orbitais que empurraram os planetas para suas posições atuais.

O problema é que algumas características observadas hoje não são facilmente reproduzidas pelas simulações tradicionais.

As órbitas de Júpiter e Saturno apresentam peculiaridades que os modelos convencionais nem sempre conseguem explicar. Além disso, estruturas como o Cinturão de Kuiper e a distribuição de pequenos corpos gelados sugerem que algo mais aconteceu durante essa fase turbulenta.

É justamente aí que surge a hipótese dos planetas desaparecidos.

Os mundos que podem ter sido expulsos

Segundo essa teoria, o Sistema Solar teria abrigado pelo menos um ou dois gigantes adicionais, com massas semelhantes às de Urano ou Netuno.

Durante o período de instabilidade gravitacional, esses mundos teriam se aproximado perigosamente dos demais planetas. Os encontros gravitacionais resultantes poderiam ter lançado esses corpos para fora do Sistema Solar, transformando-os em planetas errantes vagando pelo espaço interestelar.

Embora a hipótese resolva vários problemas teóricos, ela possui uma dificuldade evidente: os supostos planetas já não estão mais aqui.

Por isso, os cientistas precisam procurar evidências indiretas.

As luas de Urano contam uma história diferente

Urano encerra um período curioso de sua trajetória e “muda de direção” no céu
© Pexels

Foi exatamente esse o objetivo do novo estudo.

Os pesquisadores executaram 122 simulações diferentes da evolução inicial do Sistema Solar, um número muito superior ao normalmente utilizado em trabalhos semelhantes.

Os resultados mostraram que, em cerca de 85% dos cenários, o sistema de luas de Urano era completamente destruído durante os eventos de instabilidade. Apenas alguns poucos cenários permitiam que as luas sobrevivessem.

Curiosamente, os casos que melhor reproduzem a configuração observada atualmente envolvem justamente a presença de planetas gigantes adicionais que acabaram expulsos.

Segundo os autores, as luas de Urano provavelmente passaram por pelo menos dois episódios dramáticos. O primeiro teria ocorrido quando um impacto colossal inclinou o planeta em quase 98 graus, deixando-o praticamente “deitado” em relação ao plano orbital do Sistema Solar.

O segundo teria acontecido durante a fase de encontros gravitacionais entre os gigantes, quando os planetas perdidos ainda estavam presentes.

Miranda pode ser a peça-chave do mistério

Entre todas as luas uranianas, uma chama especialmente a atenção dos cientistas: Miranda.

Considerada uma das luas mais estranhas do Sistema Solar, Miranda apresenta uma superfície repleta de estruturas incomuns, como se tivesse sido montada a partir de fragmentos diferentes.

Ela exibe enormes falhas geológicas, terrenos com aparência remendada e sinais de atividade interna incompatíveis com seu pequeno tamanho.

Há anos os astrônomos suspeitam que Miranda seja o resultado da reconstrução de um corpo maior que foi destruído no passado.

O novo estudo fortalece essa hipótese. Segundo os pesquisadores, ela pode ser uma das evidências mais claras de que eventos catastróficos moldaram não apenas Urano, mas todo o Sistema Solar.

A resposta pode vir nas próximas décadas

Embora a existência dos planetas perdidos ainda não tenha sido comprovada, as novas simulações adicionam uma peça importante ao quebra-cabeça.

Além das luas de Urano, outras evidências podem estar escondidas entre os asteroides troianos de Júpiter, no distante Cinturão de Kuiper ou até mesmo na misteriosa Nuvem de Oort.

A expectativa dos cientistas é que futuras missões espaciais possam oferecer respostas mais definitivas. NASA e ESA já discutem uma missão dedicada a Urano para a década de 2040.

Se essa sonda confirmar que Miranda realmente é o resultado de uma destruição seguida de reconstrução, os astrônomos poderão finalmente obter uma das evidências mais fortes de que o Sistema Solar já teve mais planetas do que vemos atualmente.

E isso significaria que alguns dos mundos que nasceram ao lado da Terra estão vagando sozinhos pelo espaço há bilhões de anos.

 

[ Fonte: Wired ]

 

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