Aprender uma profissão e repetir os mesmos métodos durante décadas já não descreve todas as carreiras. Novas ferramentas alteram tarefas, reorganizam equipes e exigem atualização. Nesse cenário, conhecer bem uma área permanece essencial, mas precisa vir acompanhado da capacidade de trabalhar com tecnologia e outras pessoas. O desafio envolve tanto quem procura emprego quanto as organizações responsáveis por oferecer condições para essa adaptação.
Domínio digital vai além de conhecer aplicativos

Em entrevista à Cadena 3, a especialista em gestão e cultura organizacional Sandra Olive afirmou que a formação técnica precisa ser complementada por familiaridade com tecnologia, abertura ao aprendizado e capacidade de lidar com a incerteza.
Ela utiliza a expressão “coeficiente digital” para descrever a desenvoltura com ferramentas tecnológicas. A ideia envolve compreender como esses recursos participam do trabalho, acompanhando mudanças nas atividades e na circulação das informações.
Para Olive, incorporar tecnologia também exige repensar a organização. Automatizar uma tarefa isolada pode fazer parte desse processo, mas a transformação alcança a maneira como equipes compartilham informações e executam suas responsabilidades.
Um exemplo prático seria adotar uma ferramenta que produz relatórios automaticamente. Além de aprender a utilizá-la, a equipe precisa definir quem confere os resultados e como eles entram nas decisões.
Aprender continuamente ganha importância
As expectativas dos empregadores ajudam a dimensionar essa mudança. No Future of Jobs Report 2025, o Fórum Econômico Mundial informa que as empresas consultadas esperam mudanças em 39% das habilidades centrais dos trabalhadores até 2030.
O levantamento reúne previsões empresariais. Portanto, o percentual expressa uma expectativa sobre a evolução das competências, e não uma certeza sobre o destino de cada profissão.
Pensamento analítico continua entre as capacidades mais valorizadas. Conhecimentos de inteligência artificial e dados também ganham espaço, assim como criatividade, flexibilidade e disposição para aprender. A combinação indica que a preparação profissional envolve competências técnicas e humanas.
Na prática, atualizar-se pode começar por uma necessidade concreta: entender uma ferramenta usada pela equipe, melhorar a análise de informações ou aprender um procedimento que mudou. Isso dá uma finalidade clara ao aprendizado.
A exposição à IA não equivale à perda do emprego

Uma pesquisa da Organização Internacional do Trabalho e do instituto NASK estima que um em cada quatro trabalhadores está em uma ocupação com algum grau de exposição à inteligência artificial generativa.
Essa exposição mede o potencial de transformação das tarefas. Como muitas ocupações continuam exigindo participação humana, o estudo considera a mudança dos empregos o resultado mais provável para a maioria dos casos expostos.
Isso desloca parte da discussão para a reorganização das atividades. Uma profissão reúne tarefas diferentes, e a possibilidade de automatizar algumas delas não significa que todas possam ser executadas da mesma maneira.
A adaptação também depende das empresas
Olive avalia que trajetórias profissionais poderão incluir mais trabalhos por projeto e serviços especializados. Trata-se de sua leitura sobre o futuro das organizações, sem excluir a continuidade de carreiras longas dentro de uma mesma empresa.
Para os trabalhadores, esse cenário reforça a utilidade de comunicar resultados, colaborar e reconhecer quais conhecimentos precisam ser atualizados.
Entretanto, o acesso à preparação também importa. A OIT destaca a necessidade de conduzir a transição com diálogo social, buscando melhorar produtividade e condições de trabalho. A responsabilidade pela adaptação, assim, envolve decisões sobre formação e organização das atividades.
O preparo para essas mudanças começa por identificar o que está se transformando no trabalho real. A partir daí, trabalhadores e empresas podem escolher quais competências desenvolver e como aplicá-las.