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Operação Carbono Oculto: padarias e conveniências no centro do esquema do PCC

Uma megaoperação do Ministério Público de São Paulo expôs como padarias e lojas de conveniência foram usadas em um sofisticado esquema de ocultação patrimonial ligado ao PCC e a operadores da Faria Lima. O caso revela uma rede de empresas de fachada e movimentações bilionárias que camuflam os verdadeiros beneficiários.
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Tempo de leitura: 3 minutos

A investigação batizada de Operação Carbono Oculto revelou que o Primeiro Comando da Capital (PCC) e empresários ligados ao setor de combustíveis utilizavam uma complexa rede de estabelecimentos aparentemente comuns — como padarias e conveniências — para esconder patrimônio e lavar dinheiro. O esquema envolvia CNPJs duplicados, laranjas e sobreposição de empresas, tornando difícil identificar os reais proprietários.

Padarias como fachada

Segundo o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), diversas padarias foram abertas em nome de laranjas e fechadas em pouco tempo, reaparecendo em nome de outras pessoas. O inquérito cita, por exemplo, várias padarias Iracema registradas em diferentes CNPJs, além de estabelecimentos com o nome Salamanca, usados de forma repetida.

Entre os nomes apontados estão Maria Edenize Gomes, moradora de uma pequena cidade em Sergipe, que em menos de um ano se tornou sócia de 70 empresas, incluindo várias padarias. Já Tharek Majide Bannout, ligado ao setor de combustíveis, aparece como proprietário de padarias e de outros negócios que teriam conexões com investigados do PCC.

A apuração identificou pelo menos seis padarias em funcionamento ligadas aos investigados, como a Bella Portugal (Osasco), Nova Copacabana (Santa Teresinha) e Nova Iracema (Santa Cecília).

Conveniências sob suspeita

As lojas de conveniência também foram usadas como fachada. De acordo com a investigação, muitas delas estavam em nomes de familiares de líderes do PCC, como Amine Mourad, irmã de Mohamed Hussein Mourad — apontado como um dos principais beneficiários do esquema.

Amine foi identificada como titular da rede Khadige Conveniência Ltda, também conhecida como Empório Express, com 168 filiais. Após o fechamento dessas unidades em 2023, surgiram novas lojas com o mesmo padrão, chamadas Strawberry Lojas de Conveniência, abertas por Ricardo Romano, descrito pelo MPSP como figura-chave no esquema de lavagem de dinheiro.

O padrão se repetia: os estabelecimentos eram registrados, transferidos rapidamente para outros nomes e mantinham-se como elos em uma rede de ocultação de valores.

A operação Carbono Oculto

A operação teve como alvo toda a cadeia de combustíveis controlada pelo grupo criminoso, desde a importação irregular até a distribuição ao consumidor final. Segundo a Receita Federal, cerca de 1.200 postos de combustíveis movimentaram mais de R$ 52 bilhões entre 2020 e 2024, mas recolheram apenas R$ 90 milhões em impostos.

Para lavar o dinheiro, foram usados 40 fundos de investimento com patrimônio estimado em R$ 30 bilhões, operados por agentes financeiros da Faria Lima. Entre os alvos estão as instituições BK e Banrow, além das usinas Itajobi e Carolo.

Dois nomes aparecem como principais articuladores: Mohamed Hussein Mourad, conhecido como Primo, e Roberto Augusto Leme da Silva, o Beto Louco, ambos ligados à distribuidora Aster e à formuladora Copape.

Um esquema de múltiplas camadas

As padarias, conveniências e fundos funcionavam como peças de uma intrincada engrenagem de dissimulação. Empresas eram abertas e fechadas rapidamente, laranjas eram usados em massa e redes inteiras mudavam de titularidade em questão de meses.

O objetivo, segundo os investigadores, era criar “camadas de confusão proposital”, dificultando a identificação dos reais beneficiários do esquema. A estratégia envolvia desde pequenas lojas de bairro até sofisticados fundos de investimento, todos interligados em uma rede que escondeu bilhões em recursos ilícitos.

A Operação Carbono Oculto escancarou como atividades aparentemente banais — como comprar pão em uma padaria de bairro ou visitar uma loja de conveniência — podem estar ligadas a engrenagens muito maiores de lavagem de dinheiro e poder econômico.

Fonte: Metrópoles

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