À primeira vista, a redução da neve nas montanhas pode parecer apenas uma mudança na paisagem. Mas, nos Andes, ela representa algo muito maior. A neve acumulada durante o inverno funciona como um gigantesco reservatório natural, liberando água lentamente ao longo da primavera e do verão. Quando esse ciclo é interrompido, rios perdem força, reservatórios recebem menos água e milhões de pessoas começam a sentir os impactos de uma transformação que ocorre lentamente, mas de forma contínua.
O reservatório natural dos Andes está diminuindo ano após ano
Durante décadas, pesquisadores monitoraram a cobertura de neve na Cordilheira dos Andes utilizando imagens de satélite e registros climáticos de longo prazo. Os resultados revelam uma tendência que preocupa especialistas.
Estudos conduzidos pelo climatologista Raúl Cordero e sua equipe, da Universidade de Santiago do Chile, mostram que a cobertura de neve nos Andes centrais vem diminuindo, em média, cerca de 19% por década entre as latitudes de 27° e 36° sul.
Entre os anos de 2000 e 2025, aproximadamente 78 mil quilômetros quadrados de neve deixaram de cobrir essa região da cordilheira — uma área comparável à extensão de toda a Patagônia chilena.
Essa perda não afeta apenas as paisagens de alta montanha.
A neve funciona como uma enorme reserva de água doce. Durante os meses mais quentes, o degelo alimenta rios que abastecem cidades, sustentam a agricultura e movimentam usinas hidrelétricas em diferentes regiões do Chile e também da Argentina.
Para entender por que essa transformação está acontecendo, os cientistas analisaram um importante mecanismo climático conhecido como Modo Anular do Sul (SAM).
Esse sistema controla a posição dos ventos predominantes que circulam ao redor da Antártida. Nas últimas décadas, esses ventos passaram a se deslocar gradualmente para o sul, afastando as frentes frias responsáveis pelas chuvas de inverno que tradicionalmente alcançavam a região central do Chile.
Como consequência, menos precipitações chegam aos Andes centrais e, quando chegam, uma parcela crescente cai em forma de chuva, e não mais de neve.
O aumento das temperaturas também elevou a chamada linha de neve, ou seja, a altitude mínima onde a precipitação ainda consegue se transformar em neve. Isso reduz cada vez mais a área da cordilheira capaz de armazenar água para os meses seguintes.
Além disso, fenômenos climáticos como a La Niña intensificam esse processo em determinados anos, reduzindo ainda mais o acúmulo de neve na região.
Os rios já estão respondendo às mudanças na cordilheira
As consequências desse processo já podem ser medidas diretamente nos principais rios alimentados pelo degelo.
Pesquisas publicadas nos últimos anos mostram que os dez maiores rios da área estudada apresentaram vazões significativamente inferiores às registradas nas décadas anteriores.
Entre os casos mais preocupantes estão os rios Mapocho, Aconcágua e Maipo, responsáveis por abastecer a região de Santiago e grande parte do Vale Central chileno. Em aproximadamente quarenta anos, esses cursos d’água registraram reduções superiores a 40% em seus volumes médios anuais.
Essa diminuição afeta diversos setores ao mesmo tempo.
Milhões de pessoas dependem desses rios para o abastecimento de água potável. A agricultura irrigada, uma das mais importantes da economia chilena, utiliza essas águas para manter sua produção. Já o setor de geração hidrelétrica enfrenta maior dificuldade para produzir energia em períodos de estiagem prolongada.
Segundo os pesquisadores, os dados indicam uma mudança estrutural no comportamento climático da região, e não apenas uma sequência de anos secos causada pela variabilidade natural.
As projeções para as próximas décadas seguem a mesma direção.
Caso o aquecimento global continue avançando e o Modo Anular do Sul permaneça em sua tendência atual, a neve deverá ficar cada vez mais concentrada apenas nas maiores altitudes da cordilheira.
Isso significa que áreas menores conseguirão armazenar água durante o inverno, reduzindo gradualmente a recarga dos aquíferos e dos rios que sustentam milhões de pessoas.
Embora os Andes estejam entre os sistemas montanhosos mais estudados do planeta, essa realidade não é exclusiva da América do Sul.
Fenômenos semelhantes já vêm sendo registrados em regiões como o Himalaia, os Alpes europeus, a Sierra Nevada, na Califórnia, e a cordilheira Hindu Kush, na Ásia. Em todos esses locais, a perda de neve e gelo está alterando o ciclo natural da água.
Nos Andes centrais, porém, o acompanhamento por satélite realizado ao longo de quase quatro décadas oferece uma das evidências mais detalhadas de como o aquecimento do planeta pode transformar silenciosamente uma das principais reservas naturais de água doce do continente.