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Tecnologia

Milhões estão assistindo a vídeos feitos por IA sobre o passado do Brasil, mas há algo profundamente errado nessas histórias

Uma investigação encontrou dezenas de canais que transformam um dos períodos mais violentos da história brasileira em narrativas produzidas por IA capazes de alcançar milhões de pessoas.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Imagens ultrarrealistas, histórias apresentadas como acontecimentos esquecidos e títulos cuidadosamente construídos para provocar curiosidade. À primeira vista, alguns vídeos espalhados pelo YouTube podem parecer produções históricas sobre o Brasil. Uma investigação da BBC News Brasil, porém, encontrou uma indústria muito diferente nos bastidores. Inteligência artificial está sendo usada para fabricar narrativas sobre a escravidão, misturando ficção, sexualização e violência enquanto milhões de visualizações transformam esse passado em combustível para algoritmos.

Uma investigação encontrou pelo menos 150 canais seguindo a mesma fórmula

O fenômeno é muito maior do que alguns vídeos isolados. A BBC News Brasil identificou ao menos 150 canais no YouTube publicando conteúdos desse tipo. Somados, eles acumulam aproximadamente 80 milhões de visualizações e mais de 1 milhão de inscritos.

As produções aparecem em português, inglês, espanhol, francês e outros idiomas. Segundo a investigação, há canais associados a diferentes países, incluindo Brasil, Estados Unidos, Reino Unido, Canadá, Espanha e França.

A fórmula costuma ser semelhante. Os vídeos apresentam histórias fictícias ambientadas durante a escravidão, frequentemente envolvendo relações entre pessoas negras escravizadas, mulheres brancas e proprietários de escravizados.

As capas, produzidas com inteligência artificial, recorrem a imagens realistas e altamente dramatizadas. Homens negros aparecem frequentemente musculosos, com o corpo exposto ou acorrentados, enquanto mulheres brancas são representadas em situações de desejo, submissão ou dominação.

Os títulos prometem acontecimentos escandalosos ou histórias supostamente desconhecidas. Quando um vídeo funciona, surgem muitos outros reproduzindo palavras-chave, personagens e estruturas narrativas parecidas.

O resultado é uma espécie de linha de produção digital capaz de transformar rapidamente uma fórmula bem-sucedida em dezenas de novos conteúdos.

Histórias inventadas são apresentadas com aparência de descoberta histórica

Milhões estão assistindo a vídeos feitos por IA sobre o passado do Brasil, mas há algo profundamente errado nessas histórias
© Pexels

Um dos problemas mais delicados está na fronteira entre ficção e realidade.

Em um dos casos analisados pela reportagem, um canal em português apresentava uma narrativa sobre personagens supostamente envolvidos em uma relação durante o período escravista. A narração afirmava que a história deveria ser contada como realmente teria ocorrido e chegava a atribuir uma suposta descoberta arqueológica a pesquisadores da Universidade de São Paulo.

A BBC procurou evidências documentais e não encontrou registros que comprovassem a existência dos personagens ou dos acontecimentos narrados. A própria USP também não localizou informações sobre a alegada descoberta.

Esse tipo de produção está relacionado ao fenômeno conhecido como AI slop, expressão utilizada para descrever conteúdos baratos, repetitivos e produzidos em grande escala com inteligência artificial.

Muitos aparecem nos chamados canais “dark” ou faceless, nos quais o responsável não aparece diante das câmeras. Imagens, roteiro e até a narração podem ser automatizados, reduzindo drasticamente o tempo necessário para produzir novos vídeos.

O incentivo é evidente: encontrar assuntos capazes de gerar cliques, produzir rapidamente e tentar transformar audiência em receita publicitária.

Nesse modelo, precisão histórica pode acabar ficando atrás de outra prioridade: prender a atenção.

Especialistas veem algo mais grave do que simples desinformação

O problema não está apenas em apresentar ficção como realidade. Historiadores e pesquisadores consultados pela BBC apontam que essas narrativas também podem recuperar estereótipos racistas construídos ao longo de séculos.

Lorena Telles, professora do Departamento de História da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), analisou parte dos vídeos e destacou como eles transformam relações marcadas por exploração, tortura, estupro, separação familiar e luta pela liberdade em histórias centradas em desejo e supostos romances.

A representação dos homens negros também preocupa. Muitos aparecem associados à força física e a uma sexualidade exagerada, reproduzindo estereótipos racistas antigos.

Gustavo Souza, pesquisador da organização Desvelar, aponta ainda outro efeito: os vídeos recuperam imagens de pessoas negras permanentemente associadas ao papel de escravizadas, reforçando um repertório que durante muito tempo esteve presente na cultura popular brasileira.

Existe ainda um risco educacional.

Fernanda Rodrigues, pesquisadora do Instituto de Referência Internet e Sociedade (Iris), chama atenção para a possibilidade de crianças e adolescentes entrarem em contato com essas narrativas sem conseguirem distinguir adequadamente conteúdo histórico de fabricação algorítmica.

O algoritmo encontrou um passado perfeito para transformar em produto

A origem dessa tendência ajuda a compreender sua rápida expansão. A investigação aponta que formatos semelhantes começaram a aparecer com maior frequência há cerca de dois anos em canais dos Estados Unidos.

Produtores perceberam que narrativas extremas geravam audiência. Posteriormente, administradores brasileiros começaram a adaptar a fórmula ao passado escravista nacional, especialmente a partir de 2025.

O Brasil oferece um contexto histórico particularmente sensível para esse tipo de exploração. Cerca de 4 milhões de africanos escravizados foram trazidos ao país entre o século 16 e meados do século 19, segundo dados do IBGE mencionados pela investigação. Foi a maior quantidade recebida por um território nas Américas.

A dimensão histórica torna especialmente problemática a transformação desse período em entretenimento sensacionalista automatizado.

O YouTube afirma possuir políticas contra conteúdos que promovam ódio, discriminação e outras violações e pode remover produções ou restringir sua monetização quando suas regras são descumpridas. Ainda assim, a escala encontrada pela investigação mostra o tamanho do desafio.

A inteligência artificial tornou extraordinariamente barato criar imagens, vozes e roteiros convincentes. Isso democratizou ferramentas criativas, mas também abriu espaço para uma indústria capaz de fabricar centenas de histórias aparentemente plausíveis praticamente sem intervenção humana.

O que está acontecendo nesses canais talvez seja um sinal de um problema ainda maior. Quando algoritmos conseguem produzir uma versão emocionalmente poderosa do passado em minutos, a história real passa a disputar nossa atenção com uma história inventada especificamente para conseguir mais cliques.

E, como mostram dezenas de milhões de visualizações, essa disputa já começou.

[Fonte: BBC]

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