Imagine iniciar um trabalho rotineiro de manutenção em um gasoduto subterrâneo e acabar descobrindo milhares de anos de história.
Foi exatamente isso que aconteceu com trabalhadores na Itália durante a instalação de um gasoduto de metano ao sul de Nápoles, perto de Pompeia. A escavação subsequente revelou vestígios arqueológicos que vão desde a Idade do Bronze (3500 a 1200 a.C.) até a Antiguidade Tardia (250 a 750 d.C.), conforme detalhado em uma publicação da Superintendência de Arqueologia, Belas Artes e Paisagem para as Províncias de Salerno e Avellino. Entre as descobertas mais impressionantes estão evidências de humanos e animais fugindo de uma erupção do Monte Vesúvio mais de mil anos antes daquela que destruiu Pompeia.
O Monte Vesúvio entrou em erupção em 79 d.C., soterrando Pompeia e Herculano sob camadas de cinzas e pedra-pomes, preservando de forma trágica os habitantes em seus últimos momentos. O vulcão permanece ativo até hoje, com grandes erupções ocorrendo a cada poucos séculos, incluindo uma significativa em 1944.
Pegadas e Evidências da Antiga Fuga
Os arqueólogos encontraram pegadas humanas e de animais em depósitos piroclásticos (resíduos vulcânicos) oriundos do complexo vulcânico do Vesúvio. Segundo a Superintendência, essas pegadas “oferecem um testemunho comovente da fuga dramática dos habitantes diante da fúria do vulcão”. No entanto, dependendo da velocidade de solidificação dos depósitos piroclásticos, essas pegadas podem ter sido deixadas meses após a explosão.
As evidências podem estar ligadas à erupção da pedra-pomes de Avellino, que, segundo pesquisas publicadas em 2006, foi ainda mais devastadora do que a de 79 d.C. Esse evento, ocorrido há 3.780 anos, começou com uma intensa queda de pedra-pomes seguida por fluxos piroclásticos que se espalharam por até 25 km, soterrando terras e aldeias vizinhas. Um presságio inquietante para a catástrofe romana que aconteceria cerca de 1.800 anos depois.
A Persistência Humana na Região
Apesar dessa antiga erupção, os humanos não abandonaram a área. Os arqueólogos descobriram evidências de cabanas semicirculares que datam da transição entre a Idade do Bronze e a Idade do Ferro, entre 1200 e 900 a.C. Além disso, foi encontrado um santuário religioso do século III ou II a.C., próximo a uma estrada importante fora de Nuceria Alfaterna, onde artefatos possivelmente usados como oferendas votivas foram recuperados.
Outros vestígios da época romana incluem sulcos de arados e ruínas de antigas vilas rurais, que demonstram a intensa atividade agrícola na região. Os arqueólogos também reconstruíram mais de 40 estradas em torno de Nuceria Alfaterna, algumas ainda com marcas deixadas por rodas de carroças antigas.
Sepulturas Cristãs e Pagãs
As escavações, concluídas em novembro, também revelaram tanto sepulturas cristãs quanto pagãs, incluindo túmulos infantis da transição entre o período romano e a Antiguidade Tardia, um monumento funerário com sarcófago e sepulturas dentro de uma das vilas romanas. Essas descobertas ressaltam a coexistência de diferentes ritos funerários, além da prática antiga de reutilização de construções para novos propósitos.
Os elementos arqueológicos mais recentes encontrados datam da Antiguidade Tardia e sugerem o retorno ao modelo de habitação “longhouse” (casas longas e estreitas), característico da proto-história europeia—a fase entre a pré-história e a história moderna, com poucas evidências escritas.
Infraestrutura e História Andam Lado a Lado
A Superintendência concluiu em sua publicação que essas mudanças refletem a adaptabilidade das comunidades humanas diante das transformações socioeconômicas. Assim, na próxima vez que visitar a Itália e pensar em reclamar da infraestrutura, lembre-se: milhares de anos de história emergem e desafiam qualquer obra sempre que alguém sequer pensa em cavar um buraco no solo italiano.