A iluminação pública é indispensável para garantir segurança durante a noite, mas também representa um dos maiores consumos de energia das cidades e uma das principais fontes de poluição luminosa. Diante desse desafio, pesquisadores argentinos criaram uma solução que rompe com o modelo tradicional. Em vez de manter ruas totalmente iluminadas durante horas, a tecnologia responde apenas quando realmente existe alguém utilizando aquele espaço.
Um sistema inteligente que ilumina apenas o caminho de quem está passando
A ideia parece saída de um filme de ficção científica, mas já se tornou uma inovação oficialmente patenteada. Pesquisadores da Universidad Nacional de Río Negro (UNRN) e do Conicet desenvolveram um sistema de iluminação pública sob demanda que liga os postes apenas quando identifica a presença de uma pessoa caminhando pela região.
O projeto recebeu recentemente sua patente concedida pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) da Argentina, tornando-se uma solução inédita dentro dessa categoria tecnológica.
O funcionamento foi pensado para ser simples. Antes de iniciar o percurso, o usuário ativa um aplicativo em seu smartphone. A partir desse momento, as luminárias equipadas com o sistema passam a identificar o aparelho por meio da tecnologia Bluetooth.
À medida que a pessoa avança pela rua, calçada ou trilha equipada com essa infraestrutura, os postes vão sendo acesos gradualmente, formando um corredor iluminado que acompanha seu deslocamento.
Depois que o pedestre deixa determinado trecho para trás, as luzes permanecem acesas por alguns instantes antes de serem desligadas automaticamente. Dessa forma, apenas o espaço realmente utilizado permanece iluminado, evitando que dezenas de luminárias fiquem ligadas durante toda a madrugada sem necessidade.
Um dos diferenciais desse projeto é justamente o método de detecção. Ao contrário de sistemas tradicionais baseados apenas em sensores de movimento, a tecnologia argentina utiliza a comunicação via Bluetooth para identificar a presença do usuário.
Isso reduz falsos acionamentos provocados por animais, galhos balançando com o vento ou outros movimentos que normalmente ativariam a iluminação sem necessidade, aumentando o consumo de energia.
Além da economia elétrica, o sistema contribui para ampliar a vida útil das luminárias, reduzindo também custos de manutenção para municípios e concessionárias responsáveis pela iluminação pública.
A ideia nasceu de uma necessidade local e pode ganhar espaço em cidades do mundo inteiro
Embora a inovação tenha potencial para aplicações internacionais, sua origem foi bastante diferente do que muitos imaginam. O projeto surgiu em 2014 durante uma assembleia de moradores do bairro Villa Los Coihues, localizado às margens do lago Gutiérrez, em Bariloche.
Os moradores enfrentavam um dilema comum em regiões cercadas por natureza. Eles queriam melhorar a segurança para caminhar durante a noite, mas sem perder a escuridão característica do local nem prejudicar a fauna que depende dos ciclos naturais de luz.
A partir dessa demanda nasceu o chamado Plano Diretor de Iluminação Respeitosa, que acabou mobilizando professores, estudantes e pesquisadores da universidade para buscar uma solução prática.
Os primeiros protótipos utilizavam redes Wi-Fi para estabelecer comunicação entre as luminárias. Com o avanço do projeto, a equipe optou por migrar para o Bluetooth, uma alternativa mais simples, econômica e eficiente do ponto de vista energético.
Em 2023, os pesquisadores instalaram um sistema piloto composto por três luminárias para validar o funcionamento em condições reais e realizar ajustes antes de futuras ampliações.
Os benefícios vão além da redução na conta de energia. Diversos estudos científicos mostram que o excesso de iluminação artificial durante a noite interfere nos ritmos biológicos das pessoas e altera o comportamento de aves, insetos e diversos animais noturnos que dependem da escuridão para se orientar, buscar alimento e se reproduzir.
Ao manter as luzes acesas apenas quando necessário, o sistema procura equilibrar segurança, eficiência energética e preservação ambiental.
Embora ainda existam etapas importantes antes de uma adoção em larga escala, a tecnologia já desperta interesse por seu potencial de aplicação em parques, condomínios, trilhas, áreas turísticas, bairros residenciais e centros urbanos.
Em um cenário em que cidades do mundo inteiro buscam reduzir emissões e otimizar o consumo de eletricidade, uma solução criada a partir da necessidade de uma pequena comunidade argentina pode se transformar em referência para projetos de cidades inteligentes — exatamente como o título deste artigo sugere.