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Europa prepara o fim do ar-condicionado tradicional e aposta em uma nova geração de sistemas sem gases refrigerantes

A União Europeia avança na eliminação gradual dos gases refrigerantes mais poluentes, enquanto pesquisadores desenvolvem aparelhos de ar-condicionado de estado sólido. A tecnologia promete resfriar ambientes sem utilizar fluidos refrigerantes e pode transformar o futuro da climatização.
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Tempo de leitura: 4 minutos

As ondas de calor estão se tornando mais frequentes e intensas em toda a Europa. Em vários países, a busca por aparelhos de ar-condicionado disparou durante o verão, levando consumidores a esgotarem estoques em diversas lojas. Ao mesmo tempo, a União Europeia trabalha para reduzir a dependência dos sistemas tradicionais de refrigeração, considerados importantes emissores de gases de efeito estufa.

A resposta pode vir de uma tecnologia completamente diferente da utilizada há mais de um século. Diversos centros de pesquisa e empresas já desenvolvem aparelhos de ar-condicionado que dispensam totalmente os gases refrigerantes, substituindo-os por materiais capazes de aquecer ou resfriar quando submetidos à pressão, corrente elétrica ou campos magnéticos.

Embora ainda estejam em fase de testes, esses equipamentos podem representar uma das maiores mudanças já vistas na climatização residencial e comercial.

Por que os aparelhos atuais estão com os dias contados

Aire Acondicionado P
© Freepik

O funcionamento do ar-condicionado praticamente não mudou desde sua invenção.

Os equipamentos convencionais utilizam um gás refrigerante que alterna entre os estados líquido e gasoso para retirar o calor do ambiente interno e liberá-lo do lado de fora.

O problema é que muitos desses fluidos pertencem ao grupo dos gases fluorados (F-gases), substâncias que possuem um potencial de aquecimento global milhares de vezes superior ao do dióxido de carbono (CO₂) caso escapem para a atmosfera.

Por esse motivo, a União Europeia aprovou em 2024 uma regulamentação para eliminar gradualmente esses compostos.

Nos próximos anos, diversos equipamentos que utilizam esses gases deixarão de ser comercializados no bloco europeu, incentivando a busca por alternativas mais sustentáveis.

O que é a refrigeração de estado sólido

A principal aposta dos pesquisadores é uma tecnologia conhecida como refrigeração de estado sólido.

Em vez de utilizar um fluido refrigerante circulando dentro do equipamento, esses sistemas exploram materiais especiais que mudam de temperatura quando recebem estímulos físicos.

Dependendo do projeto, esse efeito pode ser provocado por:

  • pressão mecânica;
  • corrente elétrica;
  • campos magnéticos.

O calor é absorvido e liberado pelo próprio material, eliminando a necessidade dos tradicionais ciclos de compressão e expansão dos gases.

Segundo os pesquisadores, isso pode tornar os aparelhos mais eficientes, silenciosos e ambientalmente mais seguros.

Liga metálica pode resfriar ambientes sem utilizar gases

Um dos projetos mais avançados é coordenado por Paul Motzki, pesquisador da Universidade de Saarland, na Alemanha.

O grupo trabalha com uma liga metálica composta por níquel e titânio, capaz de absorver calor ao retornar à sua forma original após ser esticada.

Esse fenômeno é conhecido como efeito elastocalórico.

Desenvolvido em parceria com a empresa irlandesa Exergyn e financiado pela União Europeia, o sistema já possui protótipos em laboratório.

Segundo os pesquisadores, ele poderá reduzir a temperatura dos ambientes entre 5 °C e 10 °C com eficiência superior à dos aparelhos atuais.

Os primeiros testes em edifícios reais devem começar nos próximos anos.

Outras tecnologias também estão em desenvolvimento

A refrigeração de estado sólido não depende de uma única solução tecnológica.

Nos Estados Unidos, a Mimic Systems desenvolve bombas de calor baseadas em semicondutores capazes de transportar calor utilizando apenas corrente elétrica. Um dos protótipos já está sendo avaliado em um apartamento na cidade canadense de Vancouver.

Na Alemanha, a startup Magnotherm utiliza materiais magnetocalóricos, que aquecem e resfriam quando submetidos a campos magnéticos. O sistema será testado inicialmente em supermercados antes de chegar ao mercado residencial.

Já no Reino Unido, a Barocal, empresa criada a partir de pesquisas da Universidade de Cambridge, aposta em cristais plásticos flexíveis que liberam calor quando comprimidos e voltam a absorvê-lo ao retornar ao estado original.

Recentemente, a startup levantou US$ 10 milhões para acelerar o desenvolvimento da tecnologia.

Ainda existem desafios antes da produção em larga escala

Apesar dos avanços, especialistas afirmam que essas soluções ainda precisam demonstrar desempenho em aplicações reais de grande porte.

Os pesquisadores consideram os resultados bastante promissores, mas destacam que a adoção dependerá do interesse das grandes fabricantes de climatização, como Daikin e Samsung, que acompanham de perto a evolução dessas tecnologias.

Sem produção em escala industrial, os custos permanecem elevados e a chegada ao mercado consumidor ainda deve levar alguns anos.

Europa busca uma nova estratégia contra o calor extremo

O desenvolvimento dessas tecnologias acompanha uma mudança mais ampla nas políticas climáticas europeias.

Segundo a Agência Internacional de Energia (AIE), apenas cerca de 20% das residências europeias possuem ar-condicionado — índice muito inferior aos aproximadamente 90% registrados nos Estados Unidos.

Ao mesmo tempo, estudos indicam que países tradicionalmente mais frios, como Reino Unido, Noruega, Suíça e Finlândia, poderão registrar um forte aumento na demanda por refrigeração nas próximas décadas devido ao aquecimento global.

Por isso, especialistas defendem uma abordagem que combine diferentes estratégias. Antes de recorrer ao ar-condicionado, a prioridade deve ser evitar o superaquecimento das cidades por meio da arborização, da criação de áreas de sombra, do uso de materiais refletivos e da ventilação natural dos edifícios.

Quando a climatização for necessária, a ideia é utilizar equipamentos cada vez mais eficientes e menos poluentes. Um exemplo citado pelos pesquisadores é Paris, que expandiu sua rede subterrânea de distribuição térmica para utilizar água fria do rio Sena no resfriamento de edifícios públicos durante os Jogos Olímpicos de 2024.

Se as tecnologias de estado sólido cumprirem as expectativas, elas poderão inaugurar uma nova geração de sistemas de climatização, reduzindo significativamente o impacto ambiental do ar-condicionado e oferecendo uma alternativa mais sustentável para enfrentar as ondas de calor do futuro.

 

[ Fonte: Xataka ]

 

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