A população mundial pode se aproximar de 12,4 bilhões de pessoas por volta de 2070 antes de começar a diminuir. A projeção aparece em um estudo publicado na revista científica Environmental Research Letters, que analisou dois séculos de dados demográficos para avaliar a capacidade do planeta de acompanhar a crescente demanda humana por alimentos, energia e outros recursos.
O trabalho, realizado por pesquisadores da Universidade Flinders, na Austrália, sugere que avanços tecnológicos e ganhos de eficiência permitiram durante décadas que a disponibilidade de recursos acompanhasse o crescimento populacional.
Mas os pesquisadores identificaram uma mudança importante a partir da década de 1960: enquanto a população continuou aumentando, indicadores relacionados à disponibilidade ecológica começaram a se deteriorar.
Outro estudo, publicado na revista Sustainable Development, vai além e discute um cenário no qual a população mundial poderia cair para cerca de 4 bilhões de pessoas até 2200. A proposta é apresentada como uma trajetória de longo prazo capaz de reduzir a pressão humana sobre os recursos naturais.
A Terra consegue sustentar nosso nível atual de consumo?

Segundo o estudo liderado por Corey Bradshaw, a questão não depende apenas do número de pessoas que vivem no planeta. O nível de consumo de cada sociedade também desempenha um papel fundamental.
Quanto maior a população, maior tende a ser a necessidade de alimentos, água, energia e infraestrutura. Ao mesmo tempo, os elevados padrões de consumo registrados principalmente nas economias industrializadas ampliam significativamente essa demanda.
O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) também considera o crescimento populacional, juntamente com fatores econômicos, tecnológicos e padrões de consumo, entre os elementos relacionados à evolução das emissões globais de gases de efeito estufa.
“A Terra não consegue acompanhar a maneira como utilizamos os recursos”, afirmou Bradshaw. Segundo o pesquisador, manter a demanda atual sem mudanças significativas já representa uma pressão considerável sobre os sistemas naturais do planeta.
Os combustíveis fósseis também desempenharam um papel importante nesse processo. Durante décadas, petróleo, carvão e gás forneceram enormes quantidades de energia, permitindo ampliar a produção agrícola, o transporte, a indústria e outras atividades essenciais para sustentar uma população crescente.
O problema é que essa expansão também trouxe custos ambientais importantes.
População mundial poderia chegar a 12,4 bilhões em 2070
A humanidade passou por uma transformação demográfica extraordinária nos últimos dois séculos.
De acordo com as estimativas consideradas pelos pesquisadores, a população global está atualmente na casa dos 8 bilhões de habitantes. No cenário analisado pela equipe de Bradshaw, esse número poderia continuar crescendo até se aproximar de 12,4 bilhões por volta de 2070, antes de iniciar uma trajetória de queda.
Mais pessoas significam também uma demanda maior por alimentos e recursos básicos.
Um dos exemplos apresentados é o uso de fertilizantes sintéticos, fundamentais para o enorme aumento da produtividade agrícola observado desde o século XX. Esses produtos permitem obter mais alimentos utilizando áreas agrícolas relativamente menores.
Por outro lado, muitos fertilizantes dependem de processos industriais intensivos em energia e de matérias-primas cujo preço pode variar. Um aumento persistente desses custos pode afetar diretamente a produção agrícola e, consequentemente, os preços dos alimentos.
Por que pesquisadores falam em 4 bilhões de pessoas?

Um segundo estudo, publicado na Sustainable Development, analisa os possíveis benefícios ambientais de uma redução gradual da população mundial.
Os autores utilizam como referência um cenário de aproximadamente 4 bilhões de habitantes em 2200.
Segundo os pesquisadores, uma população menor poderia contribuir para reduzir a demanda global por energia e água doce, além de diminuir as emissões de dióxido de carbono, a extração de minerais, a produção de plásticos e a pressão sobre ecossistemas e animais selvagens.
Isso não significa, porém, uma proposta de redução populacional imediata ou forçada.
O horizonte analisado é de quase dois séculos, e mudanças demográficas dessa magnitude podem ocorrer por meio de alterações graduais nas taxas de natalidade e mortalidade.
“Adotar uma população menor pode parecer desanimador ou estranho, porque vivemos em uma época de rápido crescimento da população mundial”, explicam os pesquisadores.
Eles lembram que a população global aproximadamente quadruplicou durante o último século. Na comparação apresentada pelo estudo, uma redução pela metade distribuída ao longo de aproximadamente 170 anos representaria uma transformação demográfica mais lenta do que a expansão registrada anteriormente.
O problema não é apenas quantas pessoas vivem no planeta
Os próprios números ajudam a mostrar por que o debate é mais complexo do que simplesmente estabelecer uma população considerada ideal.
Duas sociedades com o mesmo número de habitantes podem exercer impactos ambientais muito diferentes dependendo de seus padrões de consumo, fontes de energia, sistemas agrícolas, infraestrutura e tecnologias disponíveis.
Por isso, reduzir desperdícios, ampliar a eficiência energética, desenvolver fontes de energia de baixo carbono e tornar a produção de alimentos mais sustentável continuam sendo peças importantes da equação.
A população é apenas uma delas.
Os estudos colocam em discussão uma pergunta que deve ganhar importância nas próximas décadas: não apenas quantas pessoas a Terra consegue abrigar, mas qual nível de consumo pode ser mantido por bilhões de pessoas sem ultrapassar a capacidade dos sistemas naturais que sustentam a sociedade.
[ Fonte: La República ]