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Ciência

Por que a China está cobrindo centenas de quilômetros de deserto com painéis solares

De longe, parece apenas uma gigantesca transformação no meio de uma região árida. Mas, quando os detalhes aparecem, fica claro que há muito mais acontecendo entre as dunas.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Algumas mudanças no planeta são grandes demais para serem percebidas por quem está no chão. No norte da China, uma extensa região desértica está ganhando uma nova paisagem formada por estruturas que se espalham por centenas de quilômetros. A primeira impressão é a de uma gigantesca obra de geração de energia. Mas existe uma segunda intenção por trás dela — e até uma figura curiosa que pode ser identificada a partir do espaço.

Uma faixa gigantesca começa a dominar o deserto

A transformação acontece no deserto de Kubuqi, na Mongólia Interior, uma das regiões mais áridas da China. O local fica ao sul do rio Amarelo, dentro da área de Ordos, e está se tornando palco de uma das maiores expansões de energia solar do país.

O projeto prevê uma enorme faixa de instalações fotovoltaicas que poderá chegar a aproximadamente 400 quilômetros de comprimento e 5 quilômetros de largura.

A ambição energética também é enorme. A meta é alcançar cerca de 100 gigawatts de capacidade até 2030, combinando diferentes parques solares construídos e conectados progressivamente.

Kubuqi oferece algumas condições favoráveis para esse tipo de empreendimento. Existem grandes áreas relativamente planas, alta exposição à luz solar e proximidade de importantes centros industriais.

Um dos projetos que fazem parte dessa transformação é o parque fotovoltaico de Dalad, planejado em diferentes fases e com capacidade prevista de aproximadamente 1 gigawatt. As estimativas indicam uma produção anual próxima de 2 bilhões de quilowatts-hora.

Até aqui, poderia parecer apenas mais um megaprojeto de energia renovável.

Só que os painéis estão sendo usados para algo além de transformar luz solar em eletricidade.

A própria disposição das estruturas no terreno faz parte de uma estratégia para tentar modificar as condições ambientais de uma região historicamente dominada pela aridez e pela desertificação.

Os painéis também podem ajudar a segurar a areia

A ideia por trás do projeto é combinar duas necessidades que normalmente seriam tratadas separadamente: produzir energia e recuperar um ambiente degradado.

Os painéis podem funcionar como uma barreira contra o vento, ajudando a diminuir o deslocamento das dunas. Ao mesmo tempo, a sombra projetada pelas estruturas reduz a quantidade de radiação que chega diretamente ao solo e pode diminuir a evaporação.

Com mais umidade disponível, as condições podem se tornar menos hostis para determinadas plantas.

O projeto também utiliza painéis bifaciais e sistemas de irrigação por gotejamento. Parte da água empregada vem de recursos tratados associados às atividades de mineração existentes na região.

A estratégia, portanto, não consiste simplesmente em cobrir o deserto com placas solares. A expectativa é criar uma combinação de sombra, proteção contra o vento e disponibilidade controlada de água capaz de favorecer a recuperação da vegetação.

Imagens obtidas por satélite ajudam a visualizar a dimensão dessa transformação. Comparações feitas ao longo dos anos mostram como as instalações avançaram progressivamenes de areia.

Mas existe um detalhe nesse gigantesco corredor solar que chate sobre áreas que antes apareciam predominantemente como grandes extensõma atenção por um motivo completamente diferente.

Em determinado ponto, os painéis deixam de parecer apenas uma infraestrutura industrial.

Uma figura gigante aparece entre os painéis

No meio desse enorme complexo energético está a estação solar Junma, localizada em Dalad Banner.

Vista de cima, ela apresenta um desenho bastante peculiar: os painéis foram organizados para formar a silhueta de um cavalo correndo.

A escolha tem relação com a cultura da Mongólia Interior, onde o cavalo possui forte importância histórica e simbólica. O próprio nome Junma faz referência a um cavalo de alta qualidade.

A instalação foi construída pela SPIC Nei Mongol Energy e concluída em 2019. Para criar a gigantesca imagem, foram utilizados 196.320 módulos solares, distribuídos por uma área de aproximadamente 1,4 quilômetro quadrado.

O desenho não é apenas uma curiosidade visual. A instalação continua sendo uma usina solar plenamente funcional.

Sua produção pode chegar a cerca de 2 bilhões de quilowatts-hora por ano, volume estimado como suficiente para atender ao consumo elétrico de algo entre 300 mil e 400 mil pessoas.

A escala também permitiu que a obra recebesse reconhecimento do Guinness World Records como a maior imagem formada por painéis solares.

E há mais um detalhe surpreendente: o cavalo realmente pode ser identificado a partir do espaço.

Instrumentos instalados nos satélites Landsat 8 e Landsat 9, incluindo os sensores OLI e OLI-2, conseguem registrar a instalação em órbita.

O que a China está tentando mudar além da matriz energética

A comparação de imagens de satélite obtidas em diferentes anos mostra que a paisagem da região está passando por uma transformação acelerada.

Entre 2017 e 2024, por exemplo, é possível observar a expansão das instalações sobre uma área que antes aparecia como uma extensa superfície desértica.

O projeto revela uma estratégia particularmente ambiciosa: utilizar uma infraestrutura criada para gerar eletricidade como parte de uma tentativa de controlar alguns dos efeitos da desertificação.

Isso não significa que colocar painéis solares em qualquer deserto seja automaticamente uma solução ambiental. Os impactos dependem das condições locais, do uso da água, da vegetação e da forma como os projetos são construídos e mantidos.

No caso de Kubuqi, porém, a escala impressiona.

Centenas de quilômetros de instalações, dezenas de gigawatts planejados e milhares de hectares ocupados por equipamentos transformam o projeto em algo muito maior que uma simples usina.

Entre os painéis, a areia e a vegetação que começa a aparecer, a China está tentando fazer uma aposta incomum: transformar um dos ambientes mais hostis para a agricultura e a vegetação em uma enorme infraestrutura energética que também possa ajudar a conter o avanço do próprio deserto.

E talvez seja justamente essa combinação que torne o projeto tão peculiar: visto de perto, é uma floresta de painéis; visto do espaço, é uma transformação gigantesca da paisagem.

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