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Tecnologia

Por que a transição energética não precisa depender do decrescimento econômico, segundo especialistas

A ideia de que proteger o clima exige sacrificar o crescimento econômico ganhou força em debates públicos. No entanto, estudos mostram que países avançados já estão crescendo enquanto reduzem emissões e consumo de energia. A transição energética pode caminhar junto de prosperidade, desde que seja acompanhada de eficiência, eletrificação e políticas econômicas adequadas.
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Tempo de leitura: 3 minutos

 A Revolução Industrial, movida a carvão, marcou o início de uma era de crescimento econômico sem precedentes, apoiada na expansão contínua da oferta de energia. Desde então, tornou-se comum pensar que desenvolvimento e consumo energético são inseparáveis. Mas, em plena transição para fontes renováveis, essa relação está sendo repensada. Hoje, diversos países demonstram que é possível aumentar o PIB reduzindo emissões. A questão central deixa de ser “energia ou economia?”, e passa a ser “como reorganizar a economia para um futuro sustentável?”.

Energia e crescimento: uma relação que mudou

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© Pexels

Durante boa parte do século XX, o crescimento econômico parecia caminhar lado a lado com o aumento do consumo de combustíveis fósseis. As crises do petróleo nos anos 1970 reforçaram essa percepção ao mostrar como limitações na oferta energética podiam provocar recessões.
No entanto, essa relação não é fixa. Desde o início dos anos 2000, países como Reino Unido, Alemanha, França e Dinamarca vêm aumentando seu PIB ao mesmo tempo em que reduzem o uso de energia e as emissões de dióxido de carbono.
Esse fenômeno é conhecido como desacoplamento, e indica que não é a oferta de energia que determina o crescimento, mas sim a dinâmica da economia. Em sociedades avançadas, a eficiência, a tecnologia e a estrutura produtiva passaram a ter mais peso do que simplesmente o volume de energia consumido.

Renováveis não são obstáculo ao bem-estar

Diante da urgência climática, alguns movimentos argumentam que o crescimento econômico deve ser reduzido para limitar o uso de recursos naturais e evitar o colapso climático. Porém, confundir transição energética com decrescimento pode gerar efeitos indesejados.
Se a expansão das energias renováveis for insuficiente, empresas e famílias simplesmente continuarão usando combustíveis fósseis. Restrições severas ao consumo, sem alternativas viáveis, tendem a provocar recessão, desemprego e instabilidade social.

Em vez disso, especialistas afirmam que os problemas do crescimento devem ser enfrentados no campo da economia: políticas industriais, regulação, planejamento urbano, estímulo à inovação e redistribuição de renda. Cortar energia sem reorganizar o modelo econômico não resolve a crise climática — e ainda pode agravá-la.

A armadilha que favorece os fósseis

Limitar deliberadamente o avanço da energia renovável em nome do decrescimento pode, na prática, beneficiar a indústria petrolífera.
Prova disso é a recente mudança de estratégia da British Petroleum, que anunciou aumento na produção de petróleo e redução de investimentos em renováveis devido a expectativas menores de retorno financeiro.
Enquanto isso, alguns líderes afirmam que “o problema não é o petróleo, mas o CO₂”, evitando discutir limites à extração de combustíveis fósseis.
O resultado: sem políticas globais que restrinjam a produção de petróleo, gás e carvão, a matriz fóssil continua disponível e competitiva — e se renovações não avançarem, ela seguirá dominante.

Transição energética implica, sim, redução — mas inteligente

A transição energética já contém elementos de decrecimento, porém em outra chave:

  1. Eficiência energética: tecnologias eletrificadas aproveitam melhor a energia.
    O carro elétrico, por exemplo, perde muito menos energia em calor do que o motor a combustão.

  2. Redução de emissões: ao substituir carvão, petróleo e gás por solar, eólica e hidrelétrica, diminui-se drasticamente a liberação de gases de efeito estufa.

Esses dois movimentos reduzem consumo de combustíveis fósseis sem exigir queda do bem-estar ou colapso da atividade econômica.

Viver melhor com menos não significa viver pior

A sobrevivência da civilização passa por aprender a viver melhor com menos pressão sobre o planeta. Mas isso não exige interromper a economia: exige transformá-la.
A expansão das energias renováveis deve caminhar junto de políticas sociais, novos modelos de desenvolvimento e participação comunitária — não de cortes abruptos e desestímulo ao progresso.
Não é questão de parar de crescer, e sim crescer de outro jeito.

 

[ Fonte: The Conversation ]

 

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