Pode soar estranho à primeira vista, mas a prática não tem nada de crueldade. Pelo contrário: ela ajuda a salvar milhares de aves todos os anos.
Quem são os papagaios-do-mar da Islândia
Os famosos papagaios-do-mar, conhecidos internacionalmente como puffins, são aves típicas do norte do Oceano Atlântico. Na Islândia, o principal reduto da espécie fica nas Ilhas Westman, um arquipélago ao sul do país que concentra a maior população local dessas aves.
Eles se reproduzem em pequenas tocas escavadas nos penhascos à beira-mar. Quando chegam à idade de voar, os filhotes deveriam sair sozinhos rumo ao oceano, onde passam anos vivendo entre mergulhos, voos e longos períodos boiando na água — inclusive para dormir. Só voltam à terra muito tempo depois, quando estão prontos para se reproduzir.
O problema das luzes modernas

Na natureza, o caminho até o mar é guiado pela luz da Lua refletida no oceano. Só que, no mundo moderno, esse “GPS natural” entrou em colapso. As luzes artificiais das cidades confundem os filhotes, que acabam voando na direção errada e se perdendo em terra firme.
É aí que entra a chamada temporada de puffing, quando moradores e voluntários saem à noite em busca dessas aves desorientadas. Os filhotes costumam aparecer em locais bem iluminados, como escolas, hospitais, postos de gasolina e obras. Assustados, tentam se esconder em cantos escuros.
Como funciona o resgate noturno
Os voluntários usam lanternas para localizar os papagaios-do-mar e luvas para manuseá-los. Isso evita tanto o risco de transmissão de gripe aviária quanto danos às penas, que podem perder impermeabilidade ao entrar em contato com a oleosidade da pele humana.
Cada grupo costuma encontrar de quatro a dez aves por noite. Depois de recolhidos, os filhotes são colocados em caixas para transporte. Aqueles que caem perto do porto são resgatados com redes por barcos, já que o óleo presente na água pode grudar nas asas e impedir o voo.
Todo esse esforço salva milhares de aves por ano. Os resgates são registrados em um sistema oficial, ajudando pesquisadores a acompanhar a população local.
Por que jogá-los do penhasco ajuda
No dia seguinte, os filhotes são levados até penhascos próximos ao mar. Eles poderiam simplesmente ser deixados ali para voar sozinhos — mas a tradição islandesa prefere dar uma ajudinha extra. Os voluntários seguram os passarinhos e os lançam suavemente no ar, garantindo que ganhem altura suficiente para seguir até o oceano.
Para muitos filhotes, aquele é literalmente o primeiro contato visual com o mar.
Uma tradição que virou questão de sobrevivência
Salvar papagaios-do-mar não é apenas folclore. A população dessas aves na Islândia caiu cerca de 70% nos últimos 30 anos, segundo pesquisadores locais. A principal causa é o aquecimento das águas, que reduz a oferta de peixes — base da alimentação da espécie. Estudos indicam que um aumento de apenas 1 °C pode diminuir a reprodução em mais da metade.
O problema se agrava porque os puffins demoram anos para atingir a maturidade sexual, produzem apenas um ovo por temporada e nem sempre se reproduzem todos os anos. Some isso à caça legalizada e o cenário fica ainda mais preocupante.
Mais que um ritual curioso
Por isso, arremessar papagaios-do-mar do penhasco é muito mais do que uma tradição excêntrica. É uma estratégia de conservação que ajuda a evitar que milhares de filhotes morram antes mesmo de chegar ao mar.
Sem esse esforço coletivo, a Islândia poderia perder uma de suas espécies mais icônicas. E, de quebra, também desapareceria uma das tradições mais inusitadas — e surpreendentemente necessárias — do país.
[Fonte: Super interssante]