Durante boa parte da nossa vida escolar, o Sistema Solar parecia uma estrutura perfeitamente organizada: oito planetas conhecidos hoje, ou nove para quem estudou antes de 2006. Mas, quando os telescópios começaram a encontrar cada vez mais objetos distantes, essa simplicidade começou a desaparecer. Um deles, em particular, obrigou os astrônomos a repensar o que realmente significa chamar um mundo de planeta.
O problema que apareceu quando Plutão deixou de estar sozinho
Durante grande parte do século XX, Plutão ocupava uma posição aparentemente tranquila. Era o planeta mais distante conhecido e fechava a lista dos nove mundos que orbitavam o Sol.
Isso começou a mudar quando os astrônomos passaram a observar com mais detalhes as regiões além de Netuno. Ali existia uma enorme população de objetos congelados, muitos deles desconhecidos até então. Alguns apresentavam características que lembravam Plutão.
A descoberta de Eris tornou a situação ainda mais complicada. O objeto, encontrado na região externa do Sistema Solar, apresentava dimensões comparáveis às de Plutão. Se Plutão continuasse sendo considerado planeta, seria difícil explicar por que outros corpos semelhantes deveriam ficar de fora.
Havia duas possibilidades: aumentar cada vez mais a lista de planetas ou estabelecer uma definição mais precisa.
A discussão chegou à União Astronômica Internacional (UAI), que se reuniu em Praga em agosto de 2006. Em 24 de agosto, os astrônomos aprovaram uma nova definição oficial de planeta.
Foi nesse momento que Plutão perdeu seu antigo lugar na lista.
A regra que mudou a classificação sem mudar o mundo
A nova definição estabeleceu três critérios para que um objeto fosse considerado planeta do Sistema Solar.
Ele precisa orbitar o Sol, ter massa suficiente para assumir uma forma aproximadamente arredondada e ter limpado gravitacionalmente a região ao redor de sua órbita.
Plutão atende aos dois primeiros requisitos. O problema está no terceiro.
Em sua região orbital existe uma enorme quantidade de objetos pertencentes ao cinturão de Kuiper. Plutão não domina gravitacionalmente essa área da mesma maneira que a Terra, Júpiter ou Netuno dominam suas respectivas regiões.
Por isso, passou a ser classificado como planeta anão.
A mudança foi cercada de controvérsia e continua sendo discutida até hoje. Mas existe uma consequência interessante nessa história: ao criar uma categoria intermediária, os astrônomos não precisaram transformar cada novo mundo arredondado em um planeta.
Atualmente, a UAI reconhece cinco planetas anões: Ceres, Plutão, Eris, Haumea e Makemake. E a lista pode não estar completa.
A verdadeira surpresa estava escondida depois de Netuno
A nova classificação ajudou a colocar em evidência uma ideia muito mais ampla: o Sistema Solar não é formado apenas por alguns grandes planetas separados por enormes espaços vazios.
Existe uma verdadeira coleção de mundos menores, congelados e geologicamente diferentes, especialmente nas regiões exteriores.
Estimativas indicam que pode haver mais de uma centena de objetos suficientemente grandes e arredondados para eventualmente serem considerados planetas anões. Se todos recebessem o status de planeta, a antiga lista de nove mundos poderia rapidamente se transformar em dezenas ou até centenas.
É justamente essa mudança de perspectiva que o jornalista científico Robert Lea destacou em uma análise publicada pela Space.com: a chamada “degradação” de Plutão também ajudou a revelar a diversidade escondida nos limites do Sistema Solar.
E Plutão continuou sendo um dos melhores exemplos disso.
Em 2015, a missão New Horizons realizou o primeiro sobrevoo próximo do planeta anão. As imagens mostraram montanhas de gelo, geleiras de nitrogênio e uma superfície muito mais dinâmica e complexa do que muitos imaginavam.
Ou seja, perder o título de planeta não tornou Plutão menos interessante. Pelo contrário: ele passou a fazer parte de uma família de mundos que pode guardar pistas importantes sobre a formação e a evolução do Sistema Solar.
Vinte anos depois, a pergunta mudou
A discussão sobre se Plutão deveria recuperar o antigo status continua existindo. Mas talvez essa não seja mais a questão mais interessante.
Em 2006, a astronomia precisou encontrar uma maneira de organizar um Sistema Solar que estava ficando mais complicado. Plutão acabou sendo reclassificado porque a realidade encontrada pelos telescópios já não cabia na antiga lista de nove planetas.
E essa mudança teve um efeito inesperado.
Em vez de simplesmente retirar um mundo do mapa, ela ajudou a criar espaço para reconhecer muitos outros. Ceres, Eris, Haumea, Makemake, Plutão e uma série de candidatos mostram que existem muito mais tipos de mundos ao redor do Sol do que aprendemos na escola.
Plutão, portanto, não ficou menor por causa da mudança de classificação. O que mudou foi a nossa percepção sobre o lugar que ele ocupa.
Há 20 anos, ele perdeu uma categoria. Mas, ao mesmo tempo, ajudou a abrir uma porta para um Sistema Solar muito mais diverso — e ainda cheio de mundos que sequer conhecemos direito.