Um perfume conhecido, a impressão de ouvir passos pela casa ou a sensação de que alguém se sentou ao lado. Algumas pessoas relatam experiências assim depois da morte de alguém querido, mesmo sabendo que aquela pessoa morreu. Elas podem trazer conforto, surpresa ou angústia. A ciência documenta esse fenômeno há décadas e investiga seus possíveis mecanismos, sem considerar que ele indique, por si só, um transtorno mental.
O cérebro mantém as representações de quem perdemos

Conviver com alguém envolve aprender muito mais do que reconhecer seu rosto. Construímos expectativas sobre sua voz, seus movimentos e sua maneira de reagir. Essas informações se conectam a lembranças, emoções e situações compartilhadas.
Um modelo publicado na revista Social Cognitive and Affective Neuroscience, por Alicja Nowacka, da Universidade de Auckland, e colaboradores, propõe que essas representações ajudam a compreender a sensação de presença durante o luto.
Os autores chamam essas estruturas de “redes de pessoa”: conjuntos de informações relacionadas a alguém com quem mantemos uma conexão emocional. A morte interrompe o contato, mas as representações construídas durante a relação permanecem. Segundo a hipótese, elas poderiam participar de experiências em que o falecido parece estar próximo.
Uma hipótese com três etapas
O modelo organiza o processo em três momentos: o início de uma percepção, a atribuição de uma identidade e a interpretação de seu significado.
Primeiro, surge uma experiência perceptiva. Depois, ela é reconhecida como relacionada a alguém específico. Por fim, a pessoa interpreta o acontecimento a partir de suas lembranças, emoções e referências culturais.
Essa sequência é uma proposta teórica. O trabalho não demonstra experimentalmente que as chamadas redes de pessoa sejam a causa dessas sensações. Seu objetivo é oferecer uma estrutura para novas pesquisas sobre um fenômeno cujos mecanismos continuam pouco compreendidos.
Nem toda experiência envolve ver ou ouvir alguém

Os relatos são variados. Algumas pessoas descrevem uma voz, um cheiro ou um toque. Outras apenas sentem que o familiar está presente, sem identificar uma percepção ligada aos cinco sentidos.
Uma revisão interdisciplinar publicada na Schizophrenia Bulletin reúne pesquisas sobre essas manifestações. Os autores usam a expressão “experiências sensoriais e quase sensoriais do falecido” para abranger essa diversidade.
O termo também evita presumir uma origem patológica. Embora a palavra “alucinação” apareça na literatura científica, seu uso cotidiano pode sugerir automaticamente doença mental e contribuir para o receio de compartilhar o que aconteceu. A revisão conclui que a grande maioria dessas experiências é benigna e precisa ser compreendida dentro da história pessoal, da relação com o falecido e do contexto cultural.
O significado muda de pessoa para pessoa
Sentir essa presença pode oferecer uma sensação de continuidade do vínculo. Para outras pessoas, porém, a experiência provoca medo ou sentimentos contraditórios.
As pesquisas registram essas manifestações em diferentes culturas e entre pessoas com ou sem religião. Portanto, uma crença específica não é requisito para vivenciá-las. Da mesma forma, passar pelo luto sem sentir nenhuma presença não diz nada sobre a importância da relação que existiu.
O contexto e as consequências merecem atenção. Quando essas sensações causam sofrimento intenso, prejudicam a rotina ou aparecem acompanhadas de outros sintomas preocupantes, uma avaliação profissional pode ajudar a entender o que está acontecendo.
Ainda falta explicar por que elas surgem em algumas pessoas e não em outras. Até agora, os estudos permitem reconhecer a diversidade dessas experiências e formular hipóteses sobre seu funcionamento, mas não oferecem uma resposta definitiva sobre sua origem.