Uma medida radical do governo dos Estados Unidos está começando a abalar o comércio global. Com tarifas altíssimas aplicadas sobre produtos chineses, a redução nas importações começa a deixar suas marcas visíveis nas prateleiras americanas. Para o Brasil, que depende do equilíbrio comercial global, as consequências podem ir além da distância geográfica. Preços, oferta e até a inflação doméstica podem ser afetados.
Primeiros impactos: navios vazios e prateleiras em alerta
No Porto de Los Angeles, o mais movimentado dos EUA, os navios chineses começaram a chegar com até 50% menos carga após a imposição das novas tarifas de 145% sobre produtos importados. Segundo Gene Seroka, diretor do porto, cerca de 20% das entregas previstas para maio foram canceladas — e outras 13 já estão fora da agenda para junho.
Distribuidores relatam que certos itens estão custando até duas vezes e meia mais do que há um mês. A alternativa encontrada por alguns lojistas é evitar o envio dos produtos e mantê-los armazenados na China, aguardando uma possível mudança no cenário tarifário.
Estoques esgotando e preços subindo
Nos primeiros meses de 2025, varejistas americanos se anteciparam à medida e estocaram grandes quantidades de produtos chineses. Mas esse volume extra está se esgotando rapidamente. O alerta é claro: em breve, haverá menos variedade nas lojas e os preços devem subir ainda mais.
Ryan Petersen, CEO da empresa de logística Flexport, alerta que a queda nas importações pode chegar a 60%. A consequência? Um ciclo que combina escassez, inflação e queda de consumo.

O que isso tem a ver com o Brasil?
Mesmo que o Brasil não esteja diretamente envolvido na guerra comercial, os efeitos indiretos podem ser significativos. Com os EUA absorvendo menos produtos da China, os fabricantes chineses podem buscar novos mercados — inclusive o Brasil —, o que pode afetar a concorrência e até pressionar a indústria nacional.
Além disso, insumos importados por empresas brasileiras podem sofrer reajustes, caso envolvam cadeias de suprimento que dependem de componentes chineses.
O segundo semestre será decisivo
A Federação Nacional de Varejo dos EUA estima que as importações do segundo semestre cairão pelo menos 20% em relação a 2024. Já o JP Morgan projeta queda de até 80% nas importações vindas diretamente da China.
A janela de isenção tarifária termina em 27 de maio, o que marca o fim dos últimos embarques livres de impostos. A partir daí, o comércio deve desacelerar ainda mais — e os reflexos podem se espalhar com força pelo mundo todo.