A construção civil sustentável ganhou um novo capítulo na Ilha de Itamaracá, em Pernambuco. Edna Dantas e Maria Gabrielly Dantas criaram a Casa de Sal, uma moradia composta por mais de 8 mil garrafas de vidro reutilizadas na posição vertical. O projeto, inédito no mundo, vai além do design ecológico: é um símbolo de resistência, ancestralidade e justiça climática protagonizado por mulheres negras que transformaram o próprio território por meio de práticas sustentáveis.
Uma construção que carrega história e propósito
A Casa de Sal surgiu como resposta à falta de políticas públicas que contemplem moradia e meio ambiente para populações vulneráveis. Edna, empreendedora e agente socioambiental, e Maria Gabrielly, designer de moda, são mãe e filha e compartilham o legado de reutilização e cuidado com os recursos naturais desde a infância.
Inspiradas pelos ensinamentos da avó Severina, elas começaram sua trajetória ambiental com o projeto Cabrochas, que nasceu como um brechó em 2014 e evoluiu para uma marca sustentável e fonte de renda autônoma. Em 2019, ao se mudarem para a Praia do Sossego, em Itamaracá, se depararam com problemas ambientais sérios, como descarte de resíduos em áreas de mata e mangue.
A experiência de Edna com resíduos sólidos e a observação de que o vidro era um dos materiais mais descartados no local impulsionaram a criação da casa — uma obra pensada para unir funcionalidade, estética e consciência ecológica.
Arquitetura vernacular e impacto ambiental positivo
A construção da casa começou em maio de 2020 e levou dois anos para ser concluída. São sete cômodos compostos por garrafas de vidro reutilizadas na vertical, madeira reaproveitada e móveis descartados. A estrutura, segundo Maria Gabrielly, proporciona iluminação natural e valor estético único.
“A Casa de Sal é a primeira no mundo a usar garrafas de vidro nessa posição. Isso contribui tanto para o design quanto para a sustentabilidade. Ao todo, já reutilizamos mais de 13 mil garrafas — 8 mil só na casa, e o restante em quatro eco-lixeiras comunitárias. Isso representa cerca de 8 toneladas de vidro que deixaram de poluir o meio ambiente”, relata a designer.
Além da arquitetura inovadora, a iniciativa despertou reflexões sobre moradia e representatividade. Maria Gabrielly cita que, segundo estudos, mulheres negras podem levar até sete gerações para conquistar uma casa própria — algo em torno de 200 anos. Para ela, é urgente pensar moradia como direito e reparação histórica.
O futuro da Casa de Sal e da sustentabilidade periférica
Mais que uma moradia, a Casa de Sal é um protótipo replicável. Edna e Maria Gabrielly pretendem levar sua experiência a outros territórios que buscam soluções habitacionais sustentáveis. Ambas atuam na Região Metropolitana do Recife, promovendo educação ambiental e ações comunitárias com forte engajamento social.
A história da Casa de Sal reforça que é possível construir com o que se tem à disposição — mas principalmente com escuta, coragem e ancestralidade. Em tempos de emergência climática, a ação dessas duas mulheres nordestinas se transforma em inspiração internacional sobre como a sustentabilidade pode (e deve) nascer das periferias.
[Fonte: Correio Braziliense]