Em Gaza, sobreviver já era difícil. Mas para alguns, a luta diária agora inclui provar que são pessoas reais. Acusados de serem criações de inteligência artificial, palestinos que pedem ajuda em redes sociais estão sendo silenciados ou bloqueados, mesmo com provas de identidade. O caso escancara como a desinformação alimentada por IA pode desumanizar ainda mais quem vive no centro de um dos conflitos mais brutais do século.
“Você é falso”: a suspeita que virou sentença

Saeed Ismail, de 22 anos, vive em Gaza e tenta arrecadar dinheiro online para alimentar sua família. Mas usuários de redes sociais como o Bluesky passaram a acusá-lo de ser uma criação gerada por IA. O motivo? Uma foto sua com um cobertor que exibia palavras como “pealistic” e “spfcation” — erros típicos de imagens geradas por inteligência artificial.
Mesmo após publicar vídeos e fotos do cobertor — comprado antes da guerra por sua mãe —, as acusações continuaram. Um usuário influente chamado Rev. Howard Arson espalhou a desconfiança entre milhares de seguidores. Saeed, sem a mesma visibilidade, viu sua credibilidade ruir. “As pessoas passaram a acreditar que eu era uma fraude, apenas por causa do status de quem postou sobre mim”, disse ao Gizmodo.
Comprovações ignoradas e campanhas verificadas

O Gizmodo confirmou que Saeed é real por meio de chamadas de vídeo, documentos de identidade palestinos e registros visuais de sua casa e arredores. Sua campanha no GoFundMe — hospedada por um contato de confiança na França — também foi verificada pela plataforma, que afirmou monitorar rigorosamente campanhas ligadas a crises humanitárias.
A GoFundMe explicou que, embora não atue diretamente em Gaza, permite campanhas organizadas por terceiros para beneficiar moradores da região. Os dados fornecidos por Saeed foram aprovados após verificação de identidade, recibos e outros documentos.
Quando até um chinelo vira prova de IA

Outra palestina acusada de ser falsa foi Sahar AlAjrami, que apareceu em uma foto com os filhos sentados entre escombros. Um detalhe gerou suspeita: um chinelo com a frase “HAPPY LUCKY rlorE DNUI”. Mas o modelo existe — foi localizado em uma loja da Líbia, com vendas registradas desde 2022, antes da popularização das imagens geradas por IA.
O Gizmodo confirmou a identidade de Sahar por vídeo. Seu filho Odai, de 10 anos, foi baleado no pé por um drone israelense, mas, enquanto isso, usuários na internet focavam nos chinelos — ignorando o sofrimento real da criança.

A guerra entre realidade e desconfiança

Casos como o de Hany Abu Hilal, professor de inglês que vive com os filhos em uma barraca em Khan Younis, mostram como a suspeita generalizada está silenciando vozes reais. Apesar de sua identidade ter sido confirmada, ele teve contas apagadas no Bluesky por suposto spam ao tentar divulgar sua campanha no Chuffed.
Para muitos palestinos, a única coisa que restou foi sua identidade. E ser acusado de fraude ou ser banido de plataformas por “parecer falso” é um novo tipo de violência.
Plataformas, IA e o dilema da moderação
A rede Bluesky afirmou ao Gizmodo que tenta equilibrar segurança com liberdade de expressão, mas enfrenta dificuldades para distinguir entre fraudes coordenadas e campanhas legítimas. O responsável pela segurança da plataforma admitiu que as decisões nem sempre são perfeitas e prometeu publicar diretrizes mais claras em breve.
Enquanto isso, o medo de doar também cresce — impulsionado por discursos racistas e autoritários nos EUA, especialmente com a volta de figuras como Donald Trump ao centro da política. Apesar de ainda não ser ilegal doar para palestinos, a pressão e o medo são reais.
O que ainda é real?

O avanço da IA gerou uma crise de confiança. Em um cenário onde até organizações apoiadas por governos usam vídeos artificiais para promover propaganda, como a controversa Gaza Humanitarian Foundation, a linha entre o real e o falso se torna cada vez mais nebulosa.
Mas em Gaza, as mortes são reais. Segundo a UNICEF, mais de 50 mil crianças foram mortas ou feridas desde outubro de 2023. E, mesmo diante dessa tragédia, há quem insista que tudo é encenação.
A verdade, no entanto, é simples e brutal: enquanto o mundo debate o que é real, as pessoas continuam morrendo.