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Ciência

Quando o corpo se lembra do que a mente esqueceu: IA ajuda cientistas a reativar memórias da infância

Um experimento surpreendente revelou que o corpo pode guardar lembranças que o cérebro já havia esquecido. Usando inteligência artificial para recriar o rosto infantil dos participantes, cientistas conseguiram reativar memórias da infância que pareciam perdidas. A descoberta pode transformar o tratamento de traumas e doenças cognitivas.
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Tempo de leitura: 2 minutos

Durante décadas, acreditou-se que o cérebro era o único guardião da memória. Mas uma nova pesquisa da Universidade Anglia Ruskin, em parceria com cientistas da Universidade de Dakota do Norte, sugere algo revolucionário: nosso corpo também participa do processo de lembrar. E agora, com a ajuda da inteligência artificial, os pesquisadores conseguiram abrir portas que pareciam fechadas desde a infância.

Ver o próprio rosto de criança

O estudo, publicado na revista Nature Scientific Reports e liderado pelo neurocientista Utkarsh Gupta, reuniu 50 adultos. Cada participante viu uma versão infantil de seu próprio rosto, recriada por um filtro de IA capaz de reproduzir expressões e movimentos em tempo real. O resultado era tão convincente que muitos sentiram que realmente estavam “voltando” ao corpo que tinham quando crianças.

Essa ilusão visual, chamada de distorsão corporal, provocou reações emocionais intensas. Segundo os cientistas, a sensação de “reencarnar” o corpo do passado cria as condições ideais para que memórias esquecidas sejam reativadas.

A chave escondida da infância

Após o experimento, os voluntários foram entrevistados sobre suas lembranças. O grupo que viu o próprio rosto infantil recordou muito mais detalhes — cores, cheiros, sons e até sensações físicas — do que o grupo de controle.

Para Gupta, isso acontece porque as memórias são armazenadas junto a sinais corporais, e não apenas neurais. Quando o corpo “reconhece” suas antigas proporções, posturas ou movimentos, ativa caminhos adormecidos da memória.

“Quando nossas lembranças se formaram, nossos corpos eram diferentes. Ao recriar essa sensação física, ajudamos o cérebro a reencontrar o passado”, explicou o pesquisador.

Infância
© X / ElGatoyLaCaja

Além da nostalgia: um potencial terapêutico

A descoberta pode revolucionar o tratamento de amnésia infantil, traumas e doenças degenerativas. A chamada “amnésia da infância” — a incapacidade de lembrar dos primeiros anos de vida — talvez não se deva apenas ao desenvolvimento cerebral, mas também à mudança do corpo, que perde a referência física daquele “eu” original.

Ao reconstruir essa sensação com IA ou realidade virtual, os cientistas acreditam ser possível reativar lembranças autobiográficas bloqueadas. No futuro, terapias baseadas nesse princípio poderiam ajudar pessoas com Alzheimer, perdas de identidade ou bloqueios pós-traumáticos.

O corpo como mapa do passado

O estudo desafia a separação tradicional entre mente e corpo. Não lembramos só com o cérebro — lembramos com o corpo. Nossas memórias estão ligadas a gestos, posturas e sensações físicas que mudam com o tempo.

Talvez por isso, quando voltamos à casa da infância ou ouvimos uma música antiga, sentimos algo despertar dentro de nós. Não é magia, dizem os cientistas — é o corpo completando a memória.

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