Há dezenas de milhões de anos, o planeta enfrentou uma das transformações climáticas mais drásticas da sua história. Temperaturas despencaram, calotas polares cresceram e a vida em várias partes do mundo entrou em colapso. Mas a América do Sul seguiu um roteiro diferente. Agora, um estudo internacional revela como o continente evitou uma extinção em massa — e como os Andes e os trópicos desempenharam papéis fundamentais nessa história de sobrevivência.
Um planeta em crise, um continente em adaptação

Cerca de 34 milhões de anos atrás, a Terra viveu um evento climático extremo: a formação das geleiras na Antártida marcou o início de uma nova era glacial, levando à extinção de inúmeras espécies de mamíferos em regiões como a América do Norte e a Europa. A queda brusca nas temperaturas e as mudanças nos ecossistemas provocaram um colapso em larga escala.
Porém, a América do Sul trilhou um caminho diferente. De acordo com um estudo publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), com participação de pesquisadores do CONICET na Argentina, o continente sul-americano não passou por uma extinção abrupta. Em vez disso, os dados fósseis mostram uma transição gradual, com mudanças na fauna acontecendo ao longo de milhões de anos. Essa resistência não foi aleatória: ela está profundamente ligada às características geográficas da região.
A ascensão dos Andes e sua influência inesperada
Um dos achados mais importantes da pesquisa foi o papel da Cordilheira dos Andes. Durante o período de mudança climática global, os Andes estavam em processo de formação. Essa elevação montanhosa transformou completamente o ambiente ao seu redor, criando novos habitats, alterando rotas migratórias e oferecendo refúgio para muitas espécies que, em outras regiões, não encontraram escapatória.
Segundo François Pujos, do Instituto Argentino de Nivología, Glaciología y Ciencias Ambientales (IANIGLA-CONICET), “o levantamento andino foi fundamental para a diversidade dos mamíferos sul-americanos”. A cordilheira atuou como uma barreira contra o clima extremo, permitindo que algumas populações sobrevivessem e se diversificassem, mesmo enquanto outras partes do mundo enfrentavam extinções em massa.
Trópicos: berçário de diversidade e estabilidade
Além dos Andes, outro fator decisivo para a sobrevivência da fauna sul-americana foram as zonas tropicais. Diferente das regiões extratropicais, que apresentaram mais instabilidade e ciclos de extinção e surgimento de espécies, os trópicos mantiveram uma biodiversidade relativamente estável ao longo do tempo.
Essas áreas funcionaram como refúgios naturais, preservando linhagens antigas e permitindo que a evolução seguisse seu curso sem interrupções abruptas. A ideia de que os trópicos são motores de diversidade já é conhecida na ciência, e o estudo agora reforça essa teoria com novas evidências. No entanto, os pesquisadores alertam que ainda há uma limitação importante: a escassez de fósseis nas regiões tropicais, principalmente na Amazônia, onde o solo úmido e o difícil acesso dificultam o registro fóssil.
Um novo olhar sobre a evolução sul-americana
O estudo traz uma nova perspectiva sobre a história natural da América do Sul. Em vez de ser apenas um continente isolado pela deriva continental, a região demonstrou resiliência frente a uma das maiores crises ambientais do planeta. A interação entre mudanças geológicas, estabilidade climática local e diversidade ecológica permitiu que a fauna sul-americana seguisse se transformando, enquanto outras desapareceram.