Enquanto o ideal de maternidade continua sendo exaltado nas redes sociais e campanhas publicitárias, a realidade vivida por muitas mães é bem diferente. Estudos recentes mostram um aumento constante nos casos de depressão, ansiedade e sensação de exaustão emocional entre mulheres com filhos pequenos. Este artigo analisa os dados mais recentes, as causas estruturais e sociais envolvidas, e as possíveis soluções para proteger quem cuida de todos: as mães.
A queda no bem-estar das mães já vinha antes da pandemia
Um levantamento nacional nos Estados Unidos revelou uma tendência preocupante: o bem-estar emocional das mães está em queda contínua desde 2016. Naquele ano, 38% avaliavam sua saúde mental como excelente. Em 2023, esse número caiu para 26%. Já os relatos de saúde mental ruim ou péssima saltaram de 5,5% para 8,5%.
O mais alarmante é que essa deterioração começou antes da pandemia de COVID-19. Isso indica que as causas vão além do isolamento ou da sobrecarga durante a crise sanitária. Fatores sociais e econômicos estruturais estão por trás desse declínio silencioso, que atinge mulheres de diferentes perfis.
Transtornos pós-parto: uma ameaça invisível
O período que cerca o nascimento de um filho é um dos mais vulneráveis para a saúde mental materna. De acordo com a pesquisadora Kara Zivin, distúrbios psicológicos são uma das principais causas de complicações e até de morte entre mães. Em 2020, representaram 22,5% das mortes relacionadas à gestação — mas essa estatística nem entra oficialmente nos dados de mortalidade materna, que consideram apenas os primeiros 42 dias após o parto.
Muitas mulheres com sintomas de depressão pós-parto não chegam a receber diagnóstico. Entre as que são diagnosticadas, apenas uma parte consegue iniciar um tratamento. E superar essa condição, como alerta a pesquisadora Karen Tabb Dina, está longe de ser simples.

Quem cuida de quem cuida?
Existem programas que funcionam, como o que realiza visitas domiciliares para detectar sinais de sofrimento psicológico e orientar as mães. No entanto, essas iniciativas enfrentam cortes orçamentários e instabilidade política.
O sistema público de saúde americano (Medicaid), que cobre 40% dos partos no país, passou a oferecer um ano de acompanhamento pós-parto em quase todos os estados. Mas novas propostas de redução de verbas ameaçam essa conquista.
O que está piorando — e o que pode ser feito
O estudo não aponta uma causa única para o problema, mas especialistas citam a ausência de licenças parentais adequadas, a dificuldade em encontrar creches acessíveis e o excesso de cobranças familiares e profissionais.
Zivin afirma que a saúde mental da mãe impacta toda a família, mas isso não é uma sentença. Com apoio e intervenções certas, é possível quebrar esse ciclo. O fundamental, segundo ela, é continuar olhando para as mães — mesmo depois que o bebê nasce.