Pular para o conteúdo
Ciência

Quem cresceu jogando videogame nos anos 90 pode ter desenvolvido habilidades que a ciência só agora começa a entender

Pesquisas indicam que videogames clássicos podem estimular memória, atenção e resolução de problemas. Mas será que crescer jogando também fortalece a capacidade de enfrentar dificuldades?
Por

Tempo de leitura: 3 minutos

Quem passou a infância tentando superar fases de Super Mario, encaixar peças de Tetris ou vencer desafios no videogame talvez tenha desenvolvido mais do que habilidades para jogar. Estudos em psicologia e neurociência sugerem que determinadas experiências digitais podem estimular capacidades cognitivas importantes. Entretanto, os cientistas alertam que isso não significa que os nascidos nos anos 90 sejam psicologicamente mais fortes do que outras gerações.

Videogames dos anos 90 exigiam paciência e estratégia

Quem cresceu jogando videogame nos anos 90 pode ter desenvolvido habilidades que a ciência só agora começa a entender
© Pexels

Antes dos tutoriais detalhados e das dicas que aparecem automaticamente na tela, muitos jogos exigiam que os usuários descobrissem sozinhos como avançar.

Era comum repetir uma fase dezenas de vezes, memorizar obstáculos e experimentar diferentes estratégias até encontrar uma solução.

Jogos como Tetris exigiam raciocínio espacial e antecipação de movimentos. Já Super Mario 64 estimulava a exploração de ambientes tridimensionais e a construção de mapas mentais.

Essas experiências envolvem habilidades como atenção, planejamento, memória de trabalho e adaptação diante de erros.

A repetição também pode estimular a persistência, embora isso não signifique necessariamente que o jogador desenvolverá maior resistência emocional em todas as situações da vida.

O que a ciência descobriu sobre os benefícios?

Quem cresceu jogando videogame nos anos 90 pode ter desenvolvido habilidades que a ciência só agora começa a entender
© Pexels

Uma revisão de pesquisas sobre videogames e desenvolvimento cognitivo reuniu evidências de que determinados jogos podem melhorar capacidades específicas.

Estudos com Tetris, por exemplo, identificaram avanços em tarefas de rotação mental, habilidade utilizada para imaginar objetos em diferentes posições.

Outras pesquisas observaram relações entre a experiência com videogames e estratégias de resolução de problemas.

Os resultados, entretanto, variam conforme o tipo de jogo, a frequência de utilização e as características dos participantes.

Uma revisão sistemática publicada em 2026 na revista JAMA Pediatrics, que analisou estudos longitudinais sobre mídias digitais, encontrou associações modestas entre videogames e melhor atenção e funcionamento executivo.

O mesmo trabalho também identificou associações com problemas comportamentais, reforçando que os efeitos dos jogos não são exclusivamente positivos.

Jogar também pode fortalecer a resistência emocional?

Um estudo publicado na revista Social Science Computer Review investigou relatos de jogadores que afirmavam ter desenvolvido confiança e capacidade de enfrentar dificuldades por meio dos videogames.

Alguns participantes associaram suas experiências virtuais à sensação de conseguir superar obstáculos também fora das telas.

Os pesquisadores destacaram, porém, que se tratava de um estudo exploratório baseado em relatos pessoais, insuficiente para demonstrar uma relação direta de causa e efeito.

Isso significa que aprender a insistir depois de perder uma partida pode ser uma experiência positiva, mas não comprova que jogar videogame torna alguém emocionalmente mais resistente.

Os nascidos nos anos 90 são realmente diferentes?

Apesar da nostalgia associada aos consoles clássicos, não existem evidências científicas sólidas de que pessoas nascidas nos anos 90 sejam psicologicamente superiores às gerações seguintes por terem jogado videogames.

Além disso, os jogos modernos também oferecem desafios complexos, especialmente em modalidades que envolvem estratégia, cooperação e resolução de problemas.

A quantidade de tempo dedicada às partidas também importa.

Uma pesquisa da Universidade de Oxford publicada em 2014 identificou associações entre o uso moderado de videogames e indicadores positivos de adaptação psicossocial, enquanto o uso excessivo apresentou relações menos favoráveis. Os efeitos observados foram pequenos.

A principal conclusão é que os videogames podem estimular habilidades cognitivas e proporcionar experiências de superação, mas seus benefícios dependem de como são utilizados.

Para quem cresceu diante de uma televisão tentando passar daquela fase impossível, a ciência oferece uma explicação interessante: aquelas horas de diversão também podiam envolver aprendizado, planejamento e persistência.

Partilhe este artigo

Artigos relacionados