A exploração espacial já levou seres humanos à Lua e mantém astronautas em órbita há décadas, mas ainda existem perguntas básicas sobre a saúde feminina fora da Terra. Uma delas envolve a menstruação. A nanocientista Lucía Matamoros, integrante do projeto Hypatia, investiga como o ciclo menstrual influencia o organismo durante missões que simulam viagens a Marte. Os resultados podem ajudar a tornar a exploração espacial mais segura e inclusiva.
Por que a menstruação ainda é um desafio no espaço?

Quando Sally Ride se tornou a primeira americana a viajar ao espaço, em 1983, a NASA chegou a considerar enviar 100 absorventes internos para uma missão de aproximadamente uma semana.
O episódio tornou-se um exemplo de como as necessidades das mulheres foram pouco consideradas no planejamento espacial.
Mais de quatro décadas depois, algumas astronautas ainda optam por interromper temporariamente a menstruação com métodos hormonais durante as missões.
A decisão não é obrigatória, mas pode facilitar a rotina em ambientes onde o armazenamento de produtos de higiene, o descarte de resíduos e o acesso à água são limitados.
Segundo Matamoros, essas dificuldades mostram que parte da infraestrutura espacial continua pouco adaptada às necessidades femininas.
Pesquisa investiga os efeitos do ciclo menstrual
A cientista participa do projeto Hypatia, uma iniciativa de simulação de missões marcianas formada por pesquisadoras de diferentes especialidades.
As expedições reproduzem condições como isolamento, espaços reduzidos, alimentação controlada e comunicação restrita.
Em experiências realizadas no deserto de Utah, nos Estados Unidos, Matamoros analisou dados biométricos das participantes, incluindo frequência cardíaca, temperatura corporal e padrões de sono.
Ao considerar as diferentes fases do ciclo menstrual, a pesquisadora conseguiu melhorar a interpretação das informações coletadas.
Isso acontece porque alterações hormonais podem influenciar indicadores fisiológicos que, sem o contexto adequado, poderiam ser confundidos com sinais de estresse ou problemas de saúde.
Em missões espaciais prolongadas, compreender essas variações pode ajudar a prevenir erros de avaliação médica.
É importante destacar que as simulações terrestres não reproduzem integralmente os efeitos da microgravidade ou da radiação espacial.
Coletores menstruais podem ser uma solução para Marte
Outra frente da pesquisa envolve o uso de coletores menstruais em viagens espaciais prolongadas.
Diferentemente dos absorventes descartáveis, esses dispositivos podem ser reutilizados, reduzindo a quantidade de resíduos transportados e armazenados pelas tripulações.
Um estudo publicado na revista npj Women’s Health em 2025 demonstrou que coletores menstruais resistiram a testes de lançamento sem apresentar vazamentos ou danos estruturais.
Os pesquisadores ressaltaram, porém, que ainda são necessários experimentos em microgravidade e avaliações de higiene durante períodos prolongados.
O projeto Hypatia também investigou uma possibilidade inesperada: utilizar sangue menstrual diluído como fertilizante para plantas.
Em experimentos preliminares realizados durante uma missão simulada, sementes cultivadas com a solução apresentaram resultados promissores. Ainda é cedo, entretanto, para considerar a técnica segura e viável em missões reais.
A exploração espacial precisa considerar mais o corpo feminino
Para Matamoros, a pesquisa revela um problema que ultrapassa a exploração espacial: durante muito tempo, estudos científicos utilizaram predominantemente o organismo masculino como referência.
Essa abordagem pode deixar lacunas no desenvolvimento de equipamentos, medicamentos e protocolos de segurança.
A cientista defende que compreender as diferenças fisiológicas entre os integrantes de uma tripulação é essencial para planejar viagens mais longas.
A próxima etapa do projeto Hypatia prevê novas simulações em ambientes extremos, ampliando o conhecimento sobre a saúde das astronautas.
À medida que as agências espaciais se preparam para futuras missões à Lua e a Marte, pesquisas como essas mostram que conquistar outros planetas também exige compreender melhor o corpo humano.