O racismo estrutural não está apenas nas relações sociais — ele também adoece. É o que afirma a psicóloga Clarisse Rabelo, que destacou, em entrevista ao programa CB.Saúde, o impacto direto da discriminação racial sobre a saúde mental da população negra.
“O racismo atravessa todos nós: precisamos pensar em saídas coletivas para problemas que não são individuais”, afirmou a especialista.
Racismo e saúde mental: dados alarmantes

Estudos do Ministério da Saúde revelam que pessoas negras têm 45% mais chance de morrer por suicídio do que pessoas brancas. Além disso, são mais vulneráveis a quadros de depressão, ansiedade e violência autoprovocada.
Uma pesquisa apoiada pelo Ministério da Igualdade Racial mostrou que 84 em cada 100 pessoas pretas já sofreram algum tipo de racismo. Essa exposição constante à discriminação — seja como vítima direta ou como testemunha — provoca traumas emocionais profundos e persistentes.
Clarisse lembra que é essencial diferenciar bullying de racismo, ainda que possam coexistir. “O bullying pode estar associado ao racismo; o racismo nem sempre vai ser configurado como bullying. Ele é estrutural e precisa ser identificado em todas as sutilezas”, explica.
Quando o racismo começa na infância
O problema começa cedo. Crianças e adolescentes negros são os que mais sofrem com evasão escolar, punições disciplinares e sofrimento psicológico. “A criança negra não sai da escola e deixa de sofrer. Ela está sujeita a isso em todos os lugares”, afirma a psicóloga.
Esse ciclo afeta também as famílias. No Distrito Federal, por exemplo, mais de 15% das famílias são chefiadas por mães-solo pretas, segundo o IBGE. Muitas enfrentam o abandono social e a falta de apoio. “É um abandono não só do genitor, mas da sociedade. Essas mães e filhos são vistos como indignos, o que reforça a exclusão”, observa Clarisse.
Políticas públicas e resistência coletiva
Para enfrentar o problema, Clarisse defende o fortalecimento de políticas públicas, especialmente nas áreas de educação e saúde mental. As cotas educacionais, segundo ela, são um exemplo concreto de transformação.
“Elas não reparam o sofrimento histórico, mas mudam realidades objetivas, permitindo acesso à universidade e a melhores condições de trabalho”, afirma. De acordo com o Inep, a presença de estudantes negros no ensino superior dobrou desde a implementação das cotas.
O racismo não é uma questão individual — é um mecanismo estrutural que fere, exclui e adoece. Como ressalta Clarisse Rabelo, falar sobre isso é o primeiro passo para quebrar o silêncio e construir uma rede de apoio real, que garanta não só tratamento, mas dignidade.
[Fonte: Correio Braziliense]