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Tecnologia

Relógios nucleares se tornam realidade após décadas de pesquisa e abrem caminho para novas descobertas

Dois grupos de cientistas desenvolveram relógios que utilizam núcleos atômicos para medir o tempo. A tecnologia promete ultrapassar limites atuais e investigar mistérios fundamentais da física.
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Tempo de leitura: 5 minutos

Imagine um relógio capaz de passar milhões de anos sem acumular sequer um segundo de erro. Parece precisão suficiente para qualquer necessidade humana, mas os cientistas querem ir muito além. Dois grupos de pesquisadores acabam de apresentar uma tecnologia que transforma o próprio núcleo dos átomos em referência para medir o tempo. A descoberta não pretende apenas aperfeiçoar os relógios: poderá ajudar a investigar algumas das maiores perguntas ainda sem resposta sobre o universo.

Uma nova geração de relógios acaba de se tornar realidade

Pesquisadores da Europa e da China anunciaram, em 7 de outubro de 2026, a construção dos primeiros relógios nucleares operacionais, inaugurando uma nova etapa na história da medição do tempo.

Os resultados foram apresentados em dois estudos publicados na revista científica Nature.

Um dos dispositivos foi desenvolvido por pesquisadores da Universidade Tecnológica de Viena, na Áustria, em colaboração com instituições alemãs. O outro foi construído por uma equipe chinesa liderada por cientistas da Universidade Tsinghua, em Pequim.

Embora tenham trabalhado independentemente, os grupos chegaram a soluções semelhantes para um desafio investigado há décadas.

O protótipo europeu conseguiu atingir uma estabilidade relativa da ordem de 10⁻¹⁵, resultado que, em uma comparação simplificada, corresponde a uma variação de aproximadamente um segundo em 30 milhões de anos.

Entretanto, isso não significa que os novos dispositivos já sejam superiores aos melhores relógios atômicos.

Os equipamentos atuais mais avançados ainda apresentam desempenho superior. A importância da descoberta está em demonstrar que uma tecnologia inteiramente nova pode funcionar e ser aperfeiçoada.

Segundo o físico Thorsten Schumm, da Universidade Tecnológica de Viena, a construção desses relógios era um objetivo perseguido pelos pesquisadores havia quase 50 anos.

O segredo está escondido dentro de um átomo

Relógios nucleares se tornam realidade após décadas de pesquisa e abrem caminho para novas descobertas
Primeiro relógio atômico de césio construído por de Louis Essen em 1955.
© Por National Physical Laboratory – Domínio público, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=5543813

Para compreender a novidade, é necessário entender como funcionam os relógios atômicos.

Diferentemente dos relógios convencionais, que utilizam mecanismos mecânicos ou eletrônicos, os modelos atômicos medem frequências extremamente regulares associadas às transições entre níveis de energia dos átomos.

O segundo, por exemplo, é definido oficialmente com base em 9.192.631.770 períodos de uma transição específica do átomo de césio-133.

Essa precisão é fundamental para sistemas de navegação por satélite, telecomunicações, pesquisas científicas e sincronização de redes digitais.

Os relógios nucleares utilizam um princípio semelhante, mas com uma diferença decisiva.

Em vez de observar transições energéticas dos elétrons que cercam o núcleo atômico, os cientistas utilizam transições que acontecem dentro do próprio núcleo.

A escolha oferece uma vantagem potencial: o núcleo é muito menor e geralmente menos sensível a perturbações externas, como campos elétricos.

Isso pode permitir medições ainda mais estáveis no futuro.

Um elemento radioativo tornou possível o impossível

A grande dificuldade para construir um relógio nuclear sempre esteve na energia necessária para provocar transições dentro do núcleo.

Na maioria dos elementos, essas transições exigem radiações muito energéticas, difíceis de controlar com lasers convencionais.

Entretanto, existe uma exceção particularmente interessante: o tório-229.

Esse isótopo radioativo apresenta uma transição nuclear de energia excepcionalmente baixa, que pode ser estimulada por luz ultravioleta produzida com tecnologias disponíveis.

Nos experimentos recentes, os pesquisadores incorporaram núcleos de tório-229 em cristais de fluoreto de cálcio.

Em seguida, utilizaram lasers ultravioleta para estimular as transições nucleares e estabelecer uma referência de frequência.

O relógio desenvolvido pela equipe chinesa utiliza um laser especialmente potente, enquanto o grupo europeu conseguiu produzir cristais com propriedades ópticas favoráveis.

Essas abordagens complementares podem contribuir para melhorar futuras versões.

O estudo publicado na revista Nature demonstra que é possível estabilizar um sistema de medição utilizando diretamente uma transição nuclear.

Trata-se de um avanço experimental importante, embora a tecnologia ainda precise superar desafios relacionados à estabilidade, à temperatura e à complexidade dos equipamentos.

A descoberta pode ajudar a investigar a matéria escura

Relógios nucleares se tornam realidade após décadas de pesquisa e abrem caminho para novas descobertas
© Fiske Planetarium – YouTube

A aplicação mais interessante dos relógios nucleares talvez não esteja na medição do tempo.

Os pesquisadores acreditam que esses instrumentos poderão ajudar a testar algumas das leis fundamentais da física.

As frequências das transições atômicas e nucleares dependem de constantes fundamentais da natureza, consideradas estáveis pelas teorias atuais.

Se medições extremamente precisas revelarem pequenas variações inesperadas nessas frequências, isso poderá indicar fenômenos ainda desconhecidos.

Uma das possibilidades investigadas envolve a matéria escura, componente invisível que, segundo os modelos cosmológicos, representa aproximadamente 85% da matéria do universo.

Embora sua influência gravitacional seja observada em diferentes escalas, sua composição continua desconhecida.

Determinadas hipóteses sugerem que formas de matéria escura poderiam provocar oscilações extremamente pequenas em constantes fundamentais.

Relógios nucleares suficientemente sensíveis poderiam procurar sinais compatíveis com esses efeitos.

A equipe de Viena já demonstrou a capacidade de utilizar seu dispositivo em experimentos de precisão relacionados a essa busca.

Entretanto, nenhum sinal de matéria escura foi detectado nesses testes.

O futuro da tecnologia vai muito além dos laboratórios

Além da física fundamental, os relógios nucleares poderão encontrar aplicações práticas importantes.

Sistemas de posicionamento por satélite dependem de medições extremamente precisas para calcular distâncias e determinar localizações.

Pequenos erros na sincronização podem comprometer resultados, especialmente em operações que exigem precisão elevada.

Relógios mais estáveis também poderiam beneficiar redes de telecomunicações, sistemas de transmissão de dados e equipamentos científicos.

Outra possibilidade envolve o desenvolvimento de instrumentos mais compactos e resistentes às interferências ambientais.

Segundo o Instituto Nacional de Padrões e Tecnologia dos Estados Unidos (NIST), a proteção natural oferecida pelo núcleo atômico representa uma das características mais promissoras dessa tecnologia.

Entretanto, ainda não existe uma previsão definitiva para sua utilização comercial.

Os protótipos atuais dependem de sistemas sofisticados de lasers e equipamentos laboratoriais.

Os próximos passos incluem melhorar a estabilidade, reduzir a complexidade dos dispositivos e investigar diferentes maneiras de controlar as transições nucleares.

A chegada dos primeiros relógios nucleares operacionais representa, portanto, mais do que uma conquista tecnológica.

Ela oferece aos cientistas uma nova ferramenta para investigar fenômenos que permanecem fora do alcance dos instrumentos atuais.

E, em uma área na qual diferenças minúsculas podem revelar grandes descobertas, aprender a medir o tempo com ainda mais precisão talvez seja uma das maneiras mais promissoras de compreender o funcionamento do universo.

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