Pular para o conteúdo
Mundo

Rotas da cocaína: os caminhos da droga da América Latina até os EUA

Ataques dos EUA no Caribe reacenderam o debate sobre as verdadeiras rotas do narcotráfico. Especialistas afirmam que a maior parte da cocaína e outras drogas que abastecem os EUA não chega pelo Caribe, mas sim pelo Pacífico e pela fronteira terrestre com o México.
Por

Tempo de leitura: 4 minutos

Enquanto os EUA intensificam ataques a supostas “narcolanchas” no Caribe, o mundo observa uma velha história com nova roupagem: a guerra contra as drogas. Mas os mapas mostram outra realidade — a rota mais usada para levar cocaína e outras substâncias da América Latina até os Estados Unidos não passa, na maioria dos casos, pelo mar do Caribe.

Os ataques que reacenderam o debate

Rotas da cocaína: os caminhos da droga da América Latina até os EUA
© https://x.com/OSPSF

Desde 2 de setembro, forças americanas têm bombardeado embarcações suspeitas de transportar drogas na região do Caribe e, mais recentemente, no Pacífico. O governo Trump justifica as operações como parte de uma guerra contra “narcoterroristas” — expressão usada para associar cartéis de drogas a grupos terroristas.

De acordo com o secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, 57 pessoas já morreram nas operações, realizadas sem aprovação do Congresso americano. Especialistas em direitos humanos das Nações Unidas criticaram a ação e a classificaram como “execuções extrajudiciais”.

Apesar das críticas, Washington promete continuar. “Esses não são simples traficantes — são terroristas que trazem destruição às nossas cidades”, declarou Hegseth, sem apresentar provas.

A rota real da cocaína

Pesquisadores e órgãos internacionais apontam que os Estados Unidos recebem a maior parte da cocaína pelo Pacífico e pela fronteira terrestre com o México, e não pelo Caribe.

Antoine Vella, pesquisador do Escritório das Nações Unidas contra Drogas e Crime (UNODC), explica que quase toda a cocaína do mundo é produzida em Colômbia, Peru e Bolívia, onde a folha de coca é cultivada e processada. De lá, a droga segue por países vizinhos — como Equador ou Venezuela — até chegar a portos da América Central e do México, antes de entrar nos EUA por terra.

Dados da DEA (Agência Antidrogas dos EUA) indicam que em 2019 74% da cocaína apreendida a caminho dos EUA passou pelo Pacífico, contra apenas 16% pelo Caribe. Ou seja: a rota atacada pelos EUA responde por uma pequena fração do tráfico real.

Segundo o Centro Internacional de Pesquisa e Análises contra o Narcotráfico Marítimo (CIMCON), sediado em Cartagena, a movimentação de cocaína pelo Pacífico cresceu exponencialmente nos últimos cinco anos, com apreensões de mais de 1,5 mil toneladas entre 2020 e 2024.

O “efeito bexiga” do tráfico

Para a professora Lilian Bobea, da Universidade Estadual de Fitchburg (EUA), o Caribe vive um “efeito bexiga”: quando a pressão aumenta em um ponto, o tráfico se desloca para outro.

Nos anos 1980, o Caribe era a principal rota da cocaína para os EUA. Hoje, países como República Dominicana, Porto Rico, Trinidad e Tobago e Curaçao seguem atuando no fluxo da droga — mas de forma secundária.

Com os EUA pressionando o México e as apreensões recordes de cocaína — 3.708 toneladas em 2023, segundo o Relatório Mundial de Drogas 2025 —, as rotas marítimas do Caribe voltam a ganhar relevância. O relatório também mostra um crescimento de 34% na produção global de cocaína em apenas um ano, acompanhada de aumento no consumo, especialmente na América do Norte e Europa.

Fentanil: o novo inimigo mortal

Enquanto os EUA intensificam bombardeios no Caribe, o fentanil, opioide sintético responsável por 48 mil mortes por overdose em 2024, continua entrando principalmente pela fronteira com o México.

A DEA e o Departamento de Justiça apontam que o fentanil é produzido quase totalmente no México, com insumos químicos importados da China. Diferente da cocaína, o fentanil não passa por rotas marítimas da América do Sul.

Mesmo assim, Trump afirmou nas redes sociais que uma das embarcações atacadas no Caribe transportava fentanil, alegando que a operação teria “evitado 25 mil mortes por overdose”. Especialistas como Elizabeth Dickinson, do International Crisis Group, contestam: “Eles nunca apresentaram nenhuma evidência disso.”

Guerra contra o tráfico ou guerra política?

As críticas ao governo americano crescem. Para Christopher Sabatini, pesquisador do centro britânico Chatham House, as operações navais dos EUA podem ter menos a ver com drogas e mais com interesses geopolíticos.

“Trata-se de uma tentativa de mudança de regime”, afirma ele, referindo-se à pressão americana contra o presidente Nicolás Maduro, da Venezuela. Trump já enviou oito navios de guerra, um submarino nuclear e aviões de combate para o Caribe — e autorizou a CIA a conduzir operações secretas dentro do território venezuelano.

A tensão se estende também à Colômbia. Após os ataques no Pacífico, Trump acusou o presidente Gustavo Petro de ser “líder do narcotráfico” e impôs sanções econômicas contra ele. Petro reagiu dizendo que “ajudar os EUA a reduzir o consumo de cocaína e receber sanções em troca é um paradoxo total”.

As novas ofensivas dos EUA mostram que a “guerra às drogas” continua sendo também uma guerra de narrativas. Enquanto os mapas indicam que o tráfico segue outras rotas, os bombardeios no Caribe reacendem o velho dilema: onde termina o combate ao narcotráfico — e onde começa a política de poder.

[Fonte: Correio Braziliense]

Partilhe este artigo

Artigos relacionados